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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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15.12.20

O Sítio do Papagaio-Mor Cinzento ...


Robinson Kanes

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Créditos: https://postal.pt/sociedade/2020-12-11-Marcelo-admite-que-controlo-de-fronteiras-passe-para-outras-entidades-policiais

 

 

Hay dos clases de hombres: los que viven hablando de las virtudes y los que se limitan a tenerlas.

António Machado (poeta espanhol modernista da geração de 98)

 

 

O Sítio do Papagaio-Mor Cinzento teria pouco a ver com o Sítio do Picapau Amarelo não fossem ambas ficção e uma das personagens do primeiro fosse parecida com o Visconde de Sabugosa, sobretudo na capacidade de inventar. Todavia, debaixo de um sorriso nem sempre sincero, parece esconder-se uma Cuca.

 

O Sítio do Papagaio-Mor Cinzento parece ser junto do povo, mas não é. Por isso, nada melhor que após umas fotos num supermercado com a segurança escondida voltar a anunciar uma candidatura numa pastelaria onde o valor de um café e um bolo permite um almoço num restaurante Michelin. Foi neste sítio humilde, que aquele que quer ser o presidente de todos os portugueses, já que não teve tempo de ser o Presidente do Conselho de Todos os Portugueses, afirmou que "cada português conta". E eu a pensar que escolheria o Banco Alimentar da amicíssima Isabel Jonet ou o estacionamento da Estação de Santa Apolónia.

 

É caricato escutar Marcelo dizer isto quando permite funcionários públicos tenham um salário mínimo diferente do privado. O presidente de todos os portugueses que não desistiu enquanto os magistrados não foram aumentados (numa altura de casos polémicos); que sempre promoveu a Igreja Católica; que sempre propagandeou os livreiros que lhe garantiam um acréscimo na "remuneração" televisiva e finalmente que sempre prestou condolências, homenagens e condecorações de acordo com o "real amiguismo à portuguesa" - ao sabor da onda, especialmente de gente mediática e que cativa audiências televisivas e radiofónicas. Também não podemos esquecer uma das maiores vergonhas que um Chefe de Estado pode ter que foi, à boleia da pandemia, de pedir repetidamente um "apoiozinho" à imprensa. Marcelo sabe que o seu sucesso e exposição (e ocultação do passado) a esta se deve, mesmo quando no Verão, não isolado, deu uma mensagem aos portugueses e escassos meses depois os acusava do crescimento dos contágios.

 

Marcelo também não resistiu ao discurso da mão cheia de nada do "porque temos uma oportunidade única de, para além de vencer a crise, mudar para melhor Portugal, na economia, mas sobretudo, no nosso dia a dia, reforçando a nossa coesão social e territorial”. Só faltou a justiça social. A minha pergunta é simples: e isso é? E nesse âmbito, que já fez Marcelo e que pretende fazer? Pelo menos um certo indivíduo que não deixa saudades explicou (para o bem e para o mal) como pretendia fazer a "America Great Again". Marcelo passou o mandato em campanha e com muito poucos resultados... Vendem-se títulos, promessas entre beijos e selfies, o que até pode ser uma boa estratégia quando os cidadãos ao invés de comerem o doce, escolhem o frasco.

 

Marcelo fala de não sair a meio. Mas que meio? Marcelo está desgastado, não traz nada de novo e quando o tema aquece ou quando já não consegue dançar para distrair os portugueses, desaparece. Aliás, as gaffes de Marcelo são sempre seguidas de uma a duas semanas de desaparecimento total. O episódio da baba foi a o frisar da imagem de um Marcelo debilitado que mesmo assim quer ir a todas... Faço agora um aparte: já alguém reparou que ainda hoje é impossível falar de bolo-rei sem falar em Cavaco Silva e da caricata cena de Marcelo já ninguém se lembra? As gaffes de Marcelo são "esquecidas" rapidamente, em comunicação é uma tarefa simples. Ficará também para a história a mega-gaffe do "papagaio-mor" - Marcelo precipitou-se e ainda hoje, alguém com dois dedos de testa não pode confiar nas palavras do Presidente ao recordar o episódio.

 

Recentemente, uma das imagens de marca de Marcelo voltou a mostrar-se. Marcelo adora intrigas palacianas, e a mais recente que envolve um Director Nacional de Polícia e um Ministro disso são exemplo, já não falando no Mini-Me de Marcelo: Marques Mendes (o "Pesadelo" do Picapau Amarelo?). Belém não é local para mulheres do soalheiro.

 

Marcelo agradeceu aos portugueses os momentos difíceis, todavia não foi capaz de demonstrar o seu papel nos mesmos. Marcelo anuncia-se como o mesmo Marcelo de há 5 anos (de há 20 até), e é isso que nos deve assustar. Confesso, e não é novo, que também me causa uma certa urticária que alguém que defendia o colonialismo possa proferir que quer ver o seu país "como uma plataforma entre culturas, civilizações, oceanos e continentes". Poderão dizer-me que as pessoas mudam, mas neste caso, antes da pessoa ter mudado mudou o regime. Melhor, só seria ter visto Pietro Venturi criticar Mussolini e defender uma Itália tolerante e aberta a todos os povos depois do duce ter sido pendurado na Piazzale Loreto em Milão. Marcelo sabe, e aproveitando o comboio da geração de 98 espanhola, "que se engana sempre melhor o colectivo que um homem isoladamente" como tão bem diria Pío Baroja.

 

E é neste contexto que Marcelo cai também em algo que sabe que deixa os portugueses perturbados, a mudança. O candidato coloca nas mãos dos portugueses o continuar na mesma ou apostar no desconhecido. Fosse assim em todas as épocas, e muito provavelmente Portugal não teria existido e não teria saído de Sagres. Reconheço, contudo, que as alternativas também não são as melhores, e isso é assustador: é assustador que nesta e na anterior eleição não tenha surgido alguém com o verdadeiro perfil de Presidente, alguém que, mesmo não sendo um vencedor, pudesse sem dúvida fazer a diferença - Portugal no seu défice de líderes e crónico corporativismo e mofo.

 

Finalmente, Marcelo nunca poderá ser o presidente de todos os portugueses, porque qualquer nutricionista nunca embarcará no discurso orgulhoso de Marcelo com o seu "nunca almoço" e os médicos com o seu "eu não durmo". Marcelo faz-nos lembrar aqueles colaboradores que andam sempre a dizer que estão fartos de trabalhar, que não comem, que não dormem mas quando confrontados com um pedido de resultados ou sobre o que estão a fazer não sabem o que dizer. 

 

Os portugueses não precisam de um showman, temos muito boa gente capaz de desempenhar esse papel, Portugal precisa sim de um Presidente digno desse nome, com sentido de Estado, que seja capaz de tomar decisões difíceis, que não presida ao sabor das sondagens e da popularidade e acima de tudo que conheça a nossa sociedade, coisa que por muito que Marcelo tente mostrar que conhece, não domina.

 

A política está a mudar, e os desafios futuros não darão tempo para grandes montagens mediáticas, será preciso agir e estar preparado para ser impopular e saber dirigir. Muitos dos grandes da História não foram propriamente admirados durante a sua governação e a desculpa de que um segundo mandato vai ser mais duro não pode esconder cinco anos de atraso.

 

Esperemos, de facto, que surja um (ou mais) "Doutor Caramujo" que cure as doenças da República e que também o "Major Agarra e Não Larga Mais" deixe de dormir na parada e acorde.

 

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