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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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24.08.21

Os Ares do Afeganistão e o Sentido de Humor do Destino


Robinson Kanes

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Imagem: Robinson Kanes

 

Tu ba ma, ma ba tu (se me protegeres e ajudares, farei o mesmo por ti)

Provérbio Afegão

 

Com a poeira sobre o Afeganistão a assentar e onde a lógica de todos termos opinião enquanto compramos (e fotografamos) mais umas peças de roupa feitas por miúdos em países como esse mesmo Afeganistão talvez ainda não tenha auferido do tempo suficiente para amadurecer um pouco os últimos acontecimentos e até o meu último texto sobre esta matéria.  Não me vou imbuir, e perdoem-me, na hashtag de colocar toda a tónica sobre as mulheres, parece que a questão sexista e de género também aqui decidiu criar o seu silo e muitos aproveitam este terreno para a sua própria causa - também a Ocidente as tribos andam a gerar o caos (e o lucro). Na verdade, todo o Afeganistão sofre e a questão é bem mais abrangente e para lá dos rótulos ou tribalismos sociais e mediáticos.

 

Aquele país poeirento, de pedras, montanhas e produção de ópio, está mais uma vez do avesso, não obstante, e na visão de um leigo, é importante que não esqueçamos o passado. Não é de todo o passado que muitos tentam, e por estes dias tentaram ainda mais apagar ao negar a invasão soviética e a afirmar que as mulheres nessa época é que disfrutavam de liberdade e com a conivência da nova trend dos "mentigrafos" (alguns até deram o mote para voltar a negar Holodomor). Refiro-me ao 11 de Setembro, o dia em que a nova História deste país começou - hoje, ninguém consegue perceber verdadeiramente o que levou a uma tão massiva deslocação de tropas para aquelas paragens. Se tivermos em conta que a maioria dos terroristas do 11/9 eram sauditas e as suspeitas de que no regime desse país havia quem soubesse dos planos, torna ainda a questão mais caricata, situação que piorou ainda mais após a obsessão com o Iraque. Um dos maiores crimes do século XXI que envolveu, inclusive, adulteração de factos para justificar uma invasão. O Iraque, um Afeganistão 2.0.

 

Mas será que o combate ao terrorismo se faz com a invasão massiva de um país ou deve ser realizado com intervenções cirúrgicas e com uma cadeia de comando uniforme e não diferentes comandos no terreno e de acordo com as conveniências de cada interveniente? E levam-se 20 anos para combater o terrorismo num país estrangeiro, ou melhor, um grupo terrorista? Ainda recentemente um Joe Biden veio defender essa teoria e implicitamente acusar a derrota - onde andam, por estes dias e outros, os portadores do estandarte de Biden, o grande amigo de tudo o que é vítima (ou diz ser)  Biden é ele também a imagem do político actual, governa para o Twitter e para o Facebook. 

 

Como é que alguém também consegue ouvir um Ministro da Defesa português dizer que já era expectável há muito tempo a tomada de poder dos talibans e um Ministro da Propaganda Augusto Santos Silva vir intimidar o "novo" Afeganistão com ameças letais e ferozes: aposto que os talibans já estão a tremer. Ainda em língua portuguesa... Guterres e as suas palavras bonitas nada fazem, nada... A ONU (sobretudo os membros permanentes) percebeu que mais vale um inútil como Secretário-Geral do que alguém com carisma e competência para o cargo, só assim se justifica um já quase colapso da instituição cuja multilateriladade já é coisa do passado, além do obsoletismo da sua estrutura. E é aqui que se levanta outra questão: se todos estavam à espera, porque é que ninguém se preparou? Aparentemente os únicos que até agora fizeram alguma coisa foram os pilotos que abriram as suas aeronaves sem pedir ordens a ninguém e evacuaram milhares de cidadãos afegãos. Não esqueçamos a solidária Angelina Jolie que lançou a sua última campanha entrando no Instagram e batendo todos os recordes de popularidade ... Tudo pelo bem dos afegãos, claro...

 

Mas regressemos à História... o Ocidente invadiu um país, também o saqueou, levou de facto algumas coisas boas, entre elas a liberdade (ou parte dela, o que já é algo), mas esqueceu-se de que tipo de país é o Afeganistão, como o fez no Iraque e na Líbia. O Ocidente colocou governos fantoches no poder (viu-se a péssima liderança de Hamid Karzai e a cobardia endinheirada do Ashraf Ghani) e esqueceu-se das especificidades territoriais. A única coisa que verdadeiramente garantiu foi a segurança das populações e a Democracia temporária embora assente em corrupção e elites o que, em países tribais, já sabemos como acaba assim que o invasor sai, e ainda pior se excluirmos de qualquer tentativa de governo alguns dos que mais poder detêm. Importa não esquecer que pelo meio muitos inocentes morreram como danos colaterais dessa Democracia. A intervenção baseou-se numa lógica de que enquanto há polícia há segurança mas se a polícia deixar de existir o caos regressa. Nesse campo, as forças no terreno foram incansáveis e uns verdadeiros senhores - percebe-se o porquê de muitos que por lá estiveram e as famílias daqueles que lá encontraram a morte façam esta questão: para quê?

 

Ninguém percebe também como é que em 20 anos com tantos triliões gastos não se tenha constituído um exército e uma força policial à altura - será o dinheiro que nem cabia no helicóptero que evacuou o presidente afegão? Também não se concebe que países amigos abrigassem os líderes e muitos talibans que só estavam à espera do Dia D para regressarem. Só alguém como o bispo do Porto pode ser tão naif (tentando controlar as palavras) para agora vir pedir a um país ou a um pequeno grupo que gaste triliões de dólares e coloque na linha de fogo milhares de soldados! A verdade é que um bispo, de facto, não sabe o que é gerir dinheiro e muito menos vidas... Aliás, as mortes e as tormentas permitem que ainda alguém acredite na necessidade da sua existência como profissional. A única área, neste âmbito, onde um bispo poderá de facto ter conhecimentos, é na arte de desencadear guerras.

 

Os aliados andaram mais interessados em perseguir líderes iranianos e de outras paragens do que propriamente os talibans, a sua verdadeira frente de batalha. A coligação pouco se coligou, nunca existiu um objectivo claro! Os americanos esqueceram-se que o Paquistão é e sempre será aquele país que os norte-americanos usam como querem, mas que pela sombra também vai fazendo das suas, até porque precisa do apoio de muitos dos inimigos da paz mundial e consequentemente dos Estados Unidos para sustentar a ameaça indiana que por estes dias tem esquecido o conceito de Direitos Humanos... Só por estes dias...

 

Mas, onde estávamos nós cidadãos a exigir os resultados dos nossos milhões, da nossa presença no terreno e dos nossos mortos? Estivemos no Afeganistão 20 anos, o mínimo que poderíamos ter feito era saber como as coisas estavam a decorrer... Também somos culpados, mas estamos sempre à espera que seja tema de rede social ou de moda para termos opinião formulada à pressa numa qualquer página online, num rodapé de telejornal ou nos especialistas pop. De repente, estamos todos a pedir contas até ao próximo furo jornalístico. Haja dúvidas? Alguém se lembre já da Palestina e Israel? Por estes dias, Israel tem aproveitado a onda afegã bombardeando a Palestina, não encontro os activistas de conveniência muito preocupados agora.

 

Entretanto, o comércio de ópio aumentou como nunca e o de armas também, não só as de comércio legal como as da mais lucrativa actividade de todas, o tráfico de armas. Pelas fronteiras do Afeganistão e nos países vizinhos o tráfico de armas é uma realidade à vista de todos e a semelhança entre a feira do relógio e estes mercados é ténue, só alteram os produtos em venda, o resto passa-se de forma igual, à vista de quem quiser ver. Transacionam-se M16, kalashnikovs e até veículos de combate como se transaciona pão e cuecas da moda! Entretanto, a China já vê caminho fértil para alargar a sua nova Rota da Seda e com a Rússia acha perfeitamente normal que se respeite um governo imposto pelas armas e pela opressão. Não será de admirar, um elimina inimigos, apoia regimes comunistas e ocupou a Crimeia, o outro pratica genocidios e essa é só a ponta do véu... Todavia, abrem-se caminhos perigosos, e em alguns casos, estas duas potencias defendem tudo aquilo que é hóstil ao mundo livre. Um perigo à espreita no Afeganistão, até pela presença excessiva destes dos países na região e no controlo que já exercem... E convenhamos, a Rota da Seda chinesa e os apoios económicos pagam-se muito caro, mas para já os déspostas da região vão aproveitando para reinarem como princípes e esquecem que o futuro (presente?) será de submissão! Também aqui, ninguém aprende com a História ou com factos que estão à vista de todos! Entretanto, para muitos sei que "aquilo" é tudo a mesma coisa, mas afirmarem que o Irão apoia este novo regime é de uma profunda falta de conhecimento da realidade - e se dúvidas houvesse,  a tortura e  fuzilamento, em Julho passado, de 9 hazaras em Mundarakht por parte dos talibans, responde a algumas questões.

 

Passaram 20 anos, e o Afeganistão não consegiu ser nação, não conseguiu unir as diferentes "tribos" e não conseguiu crescer para lá de Cabul! O Afeganistão era um país já sem nada e sem nada se arrisca a ficar apesar de muitas conquistas entretanto conseguidas. O Afeganistão é-me próximo, não só pelo amor à História, pelo amor àquela poeira e por uma outra guerra que travei aquando da minha formação superior em que as instituições de ensino públicas (e é aqui que é grave) com ideologias bem vincadas preferem o seu conhecimento ideológico e utopias mascaradas de veneno à verdade dos factos. Estes são os mesmos, talvez influenciados pela ideologia política, que ousam em comparar, e perdoem-me o termo, estupidamente, a saída de Saigão com o abandono de Cabul. So alguém sem conhecimento da História pode tecer uma afirmação destas!

 

Também o Ocidente, por estes dias, passou a imagem de que não é de confiança, o que aumenta as tensões naquela parte do globo sobretudo quando o abandono dos curdos na Síria ainda está fresco... Rápido a enviar e a retirar os seus, e ainda melhor a deixar os outros quando já não deles necessita, inclusive com aviões a transportarem meia dúzia de passageiros e deixam milhares em terra.  Temo que, como outros, também seja um tema esquecido, até nos rebentar a bomba na mão. A questão está em quem tem de navegar nestas paragens todos os dias, bem para lá das palavras bonitas e textos escritos em computadores e casas que davam para alimentar 10 famílias durante uma vida inteira. Esses não escrevem, não se escutam...

 

Estes acontecimentos espoletaram também o ódio e a ignorância em relação ao Corão. Não sou minimamente adepto de religiões, mas associar as práticas talibans a tais escrituras sagradas é qualquer coisa. Obviamente que uma parte da doutrina é influenciada, mas as piores práticas já é ir para lá do razoável. Além de que não me lembro de ouvir alguém falar do genocídio de milhares de pessoas no Uganda dos anos 90 e 2000 e onde a base dessa violência perpetrada pelo "Lord's Resistance Army" era a interpretação da bíblia. Aliás, Joseph Kony, o fundador, viria ser condenado em Haia.

 

É importante lembrar que este discurso de ódio foi um dos alicerces dos falcões de W. Bush para a invasão do Afeganistão há 20 anos, e não é preciso conhecer o Islão de forma profunda para perceber que talibans e Islão nem sempre combinam! Parece que não aprendemos com o exemplo de Rufaida Al-Aslamia, a "médica" reconhecida pelo profeta ou até de Nusay ba bint Ka'ab uma guerreira implacável e resistente, mesmo quando à sua volta os homens caíam. Finalmente, e até porque é tendência da tribo de género actual simplesmente causar show, era importante conhecer o papel de Fatima al-Fihri, que fundou a primeira Universidade (pelo menos conhecida como tal) do Mundo em Fez há cerca de 1000 anos. Esta questão, inclusive com uma profunda análise em relação aos dias de hoje (e não pretende camuflar violência contra mulheres) traz resultados que deixarão muitos de boca aberta e com a tentação de remover algumas hastags - até porque está mais que provado que o jornalismo a Ocidente, por exemplo, dá maior ênfase à violação de direitos no mundo muçulmano do que no seu próprio mundo. Um desses estudos é o de Rochelle Terman, "Islamophobia and Media Portrayals of Muslim Women: A Computational Text Analysis of U.S. News Coverage".

 

Em suma, sair do Afeganistão a meio da noite, ignorar os serviços secretos e surgir como paladino da paz não abona nada de bom, além de que, negociar com terroristas nesta fase dos acontecimentos, normalmente também não acaba bem - os talibans são inteligentes o suficiente para perceber que o Ocidente quer limpar a imagem e vão ceder... Vão ceder até o Afeganistão deixar de ser mainstream e voltarem a impor a sua lei. O caos regressou, e entretanto fecha-se como começou, com indivíduos a esvoaçar pelo ar e a estatelarem-se no chão e com os aviões sempre presentes. O sentido de humor do destino, por muito cruel que seja, por vezes é fantástico, mesmo que demore 20 anos a idealizar a piada. É motivo para evocar Strindberg, e a personagem Agnes, filha de Indra, que dizia "tenho dó dos humanos".

 

P.S.: este texto foi escrito um dia antes do mundo (pelo menos o que não se cinge à CNN, à SIC e ao Expresso) ter tido conhecimento que a Suécia andou a mendigar bombardeamentos no Afeganistão de modo a promover a "marketabiliby" dos seus aviões de combate... 

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Para quem quiser ler: de Anand Gopal, o livro "No Good Men Between the Living: America, the Taliban and the War Through Afghan Eyes". Desprendido mas ao mesmo tempo emocional. Relatos daquela terra do pó com um cheiro especial com três relatos afegãos bem diferentes entre si.

Para quem quiser assistir: Inserido no programa do OperaFest Lisboa 2021, "Madama Butterfly", a obra de Puccini será representada no Jardim do Museu Nacional de Arte Antiga. A não perder, se ainda existirem bilhetes.

Para quem quiser ouvir: o novo dos sempre grandes Manic Street Preachers, "The Ultra Vivid Lament"! E bem a propósito dos tempos que vivemos, deixo o single "Orwellian".

Para quem quiser comer e beber: antes de uma ida ao MNAT para ver "Madama Butterfly", porque não uma passagem pelo Dionysos, bem pertinho, na Rua das Janelas Verdes. Não é um espanto, mas é agradável e é uma boa forma de iniciar a noite - a comida é agradável.

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