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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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23.03.21

Os Novos (A)Normais...


Robinson Kanes

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Créditos:  Thiébaud Faix - Unsplash

 

 

We must know the truth; and we must avoid error, these are our first and great commandments as would-be knowers; but they are not two ways of stating an identical commandment, they are two separable laws. Although it may indeed happen that when we believe the truth A, we escape as an incidental consequence from believing the falsehood B, it hardly ever happens that by merely disbelieving B we necessarily believe A. We may in escaping B fall into believing other falsehoods, C or D, just as bad as B; or we may escape B by not believing anything at all, not even A.

William James, in "The Will to Believe"

 

 

Olhando para algumas lutas de hoje, dou por mim a rever-me no papel de certos indivíduos antes de serem chacinados por alguns dos mais horrendos regimes do século XX e até do século XXI. Aqueles regimes que começaram por perseguir quem tinha determinados comportamentos... Normais?

 

Acontece hoje em dia algo semelhante, sendo que pequenas minorias de iluminados tentam impor leis e comportamentos (e em muitos casos com sucesso) pegando em argumentos que se tivessem sido do conhecimento de muitos genocidas num outro tempo, hoje todos poderiamos utilizar uma suástica na testa ou uma foice e um martelo no braço... A primeira é proíbida, a segunda é amada em muitos países e exaltada até constitucionalmente em terras de um certo país do sul da Europa. Mas que comportamentos são esses?

 

A destruição do povo Uigur pela China? Não... O roubo de mais de 100 milhões de uma eléctrica chinesa aos portugueses? Também não... Questionar que talvez o vírus chinês (primeira mina pisada) possa mesmo ter saído mesmo que involuntáriamente de um laboratório (segunda mina pisada)? Não... E grupos de media que foram brindados com dinheiro do Estado por causa da pandemia (grande choradinho de um certo Presidente) e entraram em 2021 a gabarem-se dos grandes lucros que tiveram?

 

São sempre temas delicados, sobretudo num certo país que sai à rua por tudo e por nada ou quando mete corporativismos (e ainda dizem mal do Estado Novo) mas quando o tema é importante fica em casa não vá arranjar problemas. Cidadania de vão de escada alicerçada naquilo a que Platão apelidou da pior injustiça camuflada de justiça simulada.

 

Todavia, nesta situação em particular, refiro-me a temas como o mediatismo dado a alguém que quis apanhar a onda do racismo sendo mais racista que um racista e cuja tese de doutoramento e uma conferência incidiram sobre o racismo nos Maias. Eça esse racista... Uma coisa é certa, podemos fazer uma tese de doutoramento sem ter lido a obra! Já começo a perceber porque é que a malta que só lia os apontamentos da Europa-América dedicados aos "Maias" se safava bem nos exames. Ver em adjetivos como claridade e escuridão a supremacia do homem branco é digno de registo... Maldito homem branco, como dizia um poeta senegalês naturalizado português, era "matá-los a todos". Muitos no campo dos media tentaram fazer ecoar esta tese, todavia sem sucesso... Afinal o povo ainda não está bem dominado e nem o confinamento ajuda a moldar mentes (para muitos nunca mais acabava)... Há esperança!

 

Mas não nos ficamos por aqui: depois de uma holandesa ter sido proibida de traduzir poesia de uma jovem americana negra, eis que foi um cavalheiro catalão que pagou o preço de, à semelhança da holandesa... não ser negro. O argumento é de que um branco jamais compreenderá o sentimento de um negro... Racismo! Pois, eu também acho, mas os novos anti-racistas não... Martin Luther King deve andar às voltas no caixão.

 

Finalmente, para fecharmos o capítulo da cor e passarmos a outro hype, a entrevista vazia de conteúdo de alguém famoso que acusou a família real (excepto a rainha - não fica bem no circuito mediático) de ser racista. Parece-me bem, sobretudo se isso for explorado para ganhar alguma notoriedade depois de se desvincular desse mundo e além disso, nada como pagar sete milhões para apresentar uma queixa dessas na televisão. E a Oprah, sempre tão solidária... Bastava irem à esquadra dos Olivais e de forma gratuita tinham apresentado queixa...

 

Mas, de facto, ser branco, hetero e ter opinião própria começa a ser um pesadelo... Já sinto os Dominicanos a baterem com as cruzes no chão ou então um senhor nascido em Rheydt na Alemanha, e cujo apelido era Goebbels, a aproveitar a deixa para mais uma circular de bons costumes. 

 

E é aqui que entramos no novo hype que é censurar (não vejo outra palavra) desenhos animados a menores de sete anos porque têm conteúdo sexista (e também racista). Lembram-se da coelinha do "Space Jam"? Pois é, mudaram-lhe a imagem porque estava sexualizada. E o "Pepe le Pew", lembram-se? Supostamente essa simpática e fofa doninha é um violador do pior! Ainda há quem chame a malta que se manifesta na rua contra as restrições de maluco... 

 

Mas não nos ficamos por aqui. Nós e outros mais velhos que nascemos a ver o Peter Pan, o Dumbo e até os Aristogatos (os Aristogatos, sim... os Aristogatos) fomos impregnados pelo vício, pela imagem ofensiva, pela cultura do estereótipo... Os Aristogatos racistas? Eu só me lembro de belas histórias de amizade e amor, algumas belas lições de humanidade, mas pelos vistos alguém parece ter decidido que o mal está por lá presente e deve ser limitado - não vão as crianças de hoje ser umas bestas racistas e violadoras no futuro... Um pouco à semelhança daquelas senhoras que em cada homem encontram um violador e um agressor...

 

Sugestão? Mais Tik Tok, Netflix e outras tantas redes sociais! A educação para estes indivíduos parece começar aí. Estranho que a Xana Toc Toc ainda não tenha sido presa.

 

Mas querem preocupar-se com as crianças? Preocupem-se com as crianças-soldado, com as crianças que morrem na guerra e que morrem de fome e afogadas no Mediterrâneo e não só! Preocupem-se com as crianças que morrem fuziladas (sim, em determinados países as crianças já são alvos escolhidos para abater) ou com aquelas que aparentemente nunca conseguem ver a Justiça ser feita porque ainda se escondem os crimes de uma Igreja impregnada de pedofilia (veja-se o mais recente caso, agora na Alemanha). Pedófilia, esse crime hediondo que cada vez vai tendo menos impacte! Preocupem-se com as crianças que são vítimas de maus-tratos, com as crianças que apanham lixo na Índia ou em Lusaka, na Zâmbia. Irritem-se com as que laboram na extração de ouro na República Democrática do Congo... Preocupem-se com as mulheres escravizadas também na Índia, com as "noivas" de Santo Domingo (a capital daquele país onde o parolo adora passar férias? Não é boa ideia) ou então com as mulheres violadas por esse mundo fora.

 

Finalmente, mais outra pérola: os famosos "Senhor e Senhora Batata" passaram a ser neutros... Não há cá senhor nem senhora... Mais uma vez, não queremos que as crianças sejam influenciadas e acompanhem os novos tempos... Portanto, esquecemos a biologia e inventamos um ser Huxleyano? Voltando a alguma gente de bem, de facto, foi Mengele que disse que as experiências nazis foram uma dádiva para o desenvolvimento humano... Alinhando os astros, na verdade, as diferenças que encontro são cada vez mais ténues.

 

Descansa-me, contudo, que a maioria se esteja completamente a borrifar para isto tudo... Serão modas passageiras em alguns casos, todavia, e como diz o povo, enquanto o pau vai e volta folgam as costas, a não ser que um dia alguém atinja a cabeça e aí podemos ter um grave problema... Transportado para um país que tomou o gosto a "Estados de Emergência" (ou totalitários?), pode ser um grave problema, nomeadamente, quando pela primeira vez na História da Democracia temos uma franja da população e um sem número de gente de bem (que se alimenta do mal dos outros) a defender que a Polícia deve "atacar" à força bruta manifestações pacíficas... São os mesmo que preferem seguir um rebanho mediático, não pensar para não correr riscos e ver a jusante um problema com origem bem antes de uma saída pacífica à rua... Os mesmos que criticam quando um polícia empurra um manifestante que rouba ou partiu uma montra mas entregam a capacidade de questionar a outrem...

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  • Para quem quiser ler: "In Europa" de Geert Mak... Uma viagem pelo século XX mas vivida no presente... Interessante relato e fabulosa compilação de testemunhos. Faz falta conhecer a Europa de ontem para sermos uma melhor Europa hoje.
  • Para quem quiser ouvir: Falando da Europa, do melhor que se faz por estas terras... Eleni Karaindrou com "Eternity and a Day", uma grande banda sonora para um grande filme também.
  • Para quem quiser ver: "Baarìa" mais uma obra-prima do mestre Giuseppe Tornatore, mais um herdeiro do velho cinema italiano e mais uma história tão real... Baarìa é o nome pronunciado no dialecto local para Bagheria, cidade siciliana e berço de Tornatore. Excelente interpretação do já muito conhecido Francesco Scianna, brilhante banda sonora do suspeito do costume, Ennio Morricone e claro... Tornatore é Tornatore. Saudades da Sicília... 
  • Para quem quiser ir às compras: porque não apoiar os produtores da região de Setúbal? A Feira Online de Saberes e Sabores, "Setúbal Mostra", arranca dia 26 de Março e vai até 01 de Abril. Conheço alguns, dos vinhos aos doces passando pela olaria e pelo azulejo. Não vão ficar desapontados, é mesmo do melhor que se faz em Portugal e estou certo que a vossa Páscoa vai ser mais apetecível.
  • Para quem quiser ver e ouvir: Klaus Mäkelä dirige a Orchestre de Paris em directo no dia 24 de Março! Continuamos a entrar na primavera e agora com o Concerto para Piano nº 3 de Bartók, a inacabada Sinfonia nº 9 de Bruckner e "La Pavane pour une infante défunte" de Ravel.

 

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