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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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20.04.21

Os Revoltosos 2.0


Robinson Kanes

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Texto: Anónimo

Imagem: Robinson Kanes 

 

A era das comunicações de massa é de deterioração da comunicação inter-humana. 

Gilles Lipovetsky in, "O Império do Efémero".

 

 

Nunca como hoje, o Ocidente teve oportunidade de se expressar de forma tão livre. As redes sociais, aliás, o digital como um todo, permitem que uma grande maioria da população tenha voz - ou será que é uma maioria assim tão grande? - e se expresse de forma mais ou menos entusiasta. Neste campo, tenho de enaltecer todas as inovações e de como a transformação foi, e é, necessária.

 

Nunca como hoje, em Portugal e não só, a revolta da sociedade foi tão generalizada e tão audível. Mas talvez, nunca como hoje essa revolta não passa de meros caracteres digitados num café enquanto se espera por um amigo, ou então porque é preciso escrever qualquer coisa para mostrar que existimos ou que temos opinião. Que temos opinião mesmo não tenhamos pesquisado sobre o tema e a única fonte de informação são os títulos de um qualquer artigo notícioso que nem sempre é o mais fidedigno ou opiniões de uma massa que não interessa contrariar. Camuflamos a nossa incapacidade de ter opinião própria, embarcado no comboio daqueles que nem sempre seguem para um destino esclarecido. 

 

Actualmente, temos opinião sobre tudo e sobre todos mas, talvez depois de esmioçadas convicções e argumentos não tenhamos opinião sobre nada a não ser sobre nós próprios, e mal. Baseamos a nosso opinião naquilo que nos chega e não paramos um momento para pensar - não procuramos ir mais longe e imediatamente desatamos a escrever e a falar como se estivessemos na posse de toda a informação e presenciado factos in loco. Podemos dizer que sempre foi assim... E foi. Mas antes a maioria da população não utilizava nomes "pomposos" para definir as suas habilitações ou o seu cargo profissional... Não estávamos perante uma população tão esclarecida, tão letrada e com os níveis de vida que encontramos na sociedade actual. Mas pensar em algo, analisar uma temática, leva a que percamos o comboio que leva todos aqueles que querem ser ouvidos, mesmo que não digam nada digno de ser escutado... 

 

Nunca como hoje fomos tão revoltados, revoltados no nosso sofá, na nossa secretária em casa ou no trabalho (porque até nem gostamos do que fazemos, mas ao invés de mudarmos preferimos protelar essa decisão para garantir que a nossa imagem perante os outros continua alicerçada em vigas de areia) mas tão cobardes na praça pública. Na praça pública que não é uma rede social, mas aquela praça pública onde somos rosto, cheiro, voz e cidadãos. Mais do que um povo reprimido, que não pode falar sob pena de acabar numa cadeia, tenho medo de um povo que pode dizer o que quer e revoltar-se por tudo e por nada, mas que embarca neste folclore de entra tema e sai tema como se nada tivesse acontecido. Mais que tudo, e seguindo as palavras da Faulkner nos "Ratoneiros", o nosso exterior é apenas aquilo em que vivemos, em que dormimos, e pouca ligação tem com o que somos e ainda menos com o que fazemos".

 

Aquele que contesta no digital o poder político por ser corrupto, é o mesmo que amanhã troca favores com outrem a bem de trazer mais uns euros no final do mês para além do ordenado. Aquele que se revolta contra a fome em África, é aquele que atropela tudo e todos no emprego e no regresso a casa, só para que ao filho não falte um carro de passeio que custa mais que alguns automóveis. Aquele que critica e despeja toda a raiva nas redes sociais, em blogs, em jornais e outros meios, é aquele que mal chega a hora de sair, fecha o computador, não deseja bom descanso a ninguém, chega a casa, janta e vê televisão e dorme um descansado sono sem qualquer inquietação em relação ao mundo que o rodeia... A não ser que tenha contraído dívidas quando teve necessidade de viver acima das posses e agora não as possa pagar. Ou então aquele que se bate (nas palavras e na imagem) pela luta contra o racismo mas não é capaz de trabalhar lado-a-lado com um preto. Ou finalmente, aquele que se bate contra a pobreza, mas nem arrisca passar de carro num bairro social, mesmo que goste de tirar fotografias ao lado dos desgraçadinhos enquanto lhes coloca um pacote de arroz no saco enquanto faz voluntariado de holofote - sobretudo agora que o voluntariado abre portas também no emprego.

 

Para aqueles que praticam o mal, para aqueles cuja ética e bem-estar não passam de notas de rodapé em revistas sociais, talvez, nunca como hoje, o mundo tenha sido um local tão apetecível para perpetuar tantas más práticas... Pois, já diz o povo, "os cães ladram mas a caravana passa", mesmo que vá cheia de bandidos, pois também diz esse mesmo povo que "cão que ladra não morde". Para os revoltosos acomodados, na verdade, podem ficar tranquilos no sofá enquanto a única noção que têm de conflito é o Netflix, pois "quem não age, não corre riscos", já dizia Vergilio Ferreira.

 

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  • Para quem quiser ler: ainda pelos portugueses e alguém cuja leitura me dá sempre um prazer especial e um boost de alegria... David Mourão-Ferreira e podemos ir pela "Obra Poética".
  • Para quem quiser ouvir: Sol, restaurantes e esplanadas... Música para escutar e que também me deixa sempre bem disposto. Também os "Parov Stelar" têm esse efeito... "The Mojo Radio Gang" é uma malha daquelas. Desculpem, mas o "fique em casa" não é para mim (respeitar as regras sim) e também não pretendo ser um burguês do home-office a tempo inteiro... Além de que não tenho TV em casa e confesso que não tenho pinta de esponja, sobretudo de detergentes para alma estupidificantes. "Booty Swing" for you...
  • Para quem quiser assistir: Enquanto um director artístico utiliza o teatro nacional (de todos nós, não parece, mas é...) que dirige para quase só passar as suas obras e em cada canto encontra fascistas e um discurso quase estalinista (demasiado convívio com algumas ideologias e amigos do Bairro Alto com tiques caviares), deixo o D. Maria II de lado e refugio-me no Teatro da Politécnica onde os Artistas Unidos representam "BIRDLAND" de Simon Stephens. Bastante actual... Para nos fazer pensar no nosso caminho no Mundo de hoje que não é bem aquilo que parece. Voltarei ao D. Maria II quando uma certa obsessão pela recente vaga de lavagens cerebrais deixar de ter lá a sua base... E é pena, com tantos bons actores que por lá andam.
  • Para quem quiser comer e beber: começamos a comer, e nada como uma deslocação ao Tavira... Com a abertura dos restaurantes, o cheiro a peixe grelhado faz as maravilhas de quem anda pela Luisa Todi, em Setúbal. É possível ser moderno mantendo o sabor da tradição. Para regar o palato e apimentar (literalmente) uma boa conversa, ainda pela grande península, um "Casa Ermelinda Freitas Gewürztraminer" a força desta casta alsáciana acompanha belos finais de tarde em amena cavaqueira.

No meio de todas estas sugestões, impera o gosto pessoal... Tudo se pagou e se paga, inclusive a música... Como dizem, quem quer bolota trepa e eu também não tenho pinta para peditórios. Será que Bernardino Soares pagou o artigo na (falta de)Visão?

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