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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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05.01.21

Ouvir: uma espécie em vias de extinção...


Robinson Kanes

rome robinson kanes.jpgImagem: Robinson Kanes

 

 

Listening is so basic that we take it for granted. Unfortunately, most of us think of ourselves as better listeners than we really are.

Michael P. Nichols, in "The Lost Art of Listening"

 

Imaginem um mundo onde todos querem ser ouvidos (e vistos) mas ninguém está disposto a ouvir? Não será preciso puxar muito pela imaginação, basta olhar à nossa volta e percebemos que é a realidade. Na verdade, também as distracções nos retiram o foco do essencial e como todos sabemos, as consequências a nível pessoal, social e profissional desta forma de estar acarretam resultados que nem sempre são os melhores. A título pessoal, quantas vezes ficamos espantados com o fim de uma relação e não compreendemos que já há muito alguém nos dava sinais de que... e não me refiro a sinais de que existe algum desconforto, mas sinais de que não estamos a ouvir, a escutar. Por incrível que pareça, os piores ouvintes daqueles que nos são próximos, muito provavelmente, somos nós...

 

Todos gostamos de ser ouvidos, afinal é uma forma de sentir que fazemos parte de algo, de que somos levados a sério e de que alguém está lá para ouvir e não nos deixa no vazio isolados. No entanto, quantas vezes paramos nós para ouvir? Até que ponto chega a nossa empatia com o outro para que o discurso possa fluir em duas direcções? De facto, e relembrando alguns exemplos dos últimos dias, quando já nem os entrevistadores querem ouvir os entrevistados, temos de pensar bem em quão perigoso isso poderá ser, seja em que ocasião for.

 

Podemos transportar esta lógica para um contexto profissional e vamos encontrar um sem número de indivíduos a queixarem-se que as chefias não os escutam, todavia é importante lembrar que as pessoas não são promovidas propriamente porque são bons ouvintes mas muito provavelmente porque são bons trabalhadores ou... bons palradores. Para isso também existem estratégias e não são poucas as vezes em que o problema também pode estar do lado de quem procura ser ouvido. Não obstante, e socorrendo-me das palavras do CEO da Amgen, Kevin Sharer, de uma coisa podemos ter a certeza, "as organizações (indivíduos) que não ouvem vão falhar, porque não percepcionam o ambiente em mudança ou os requisitos e também não estão atentas à satisfação dos seus colaboradores ou clientes". 

 

Uma nota para um estudo publicado na Harvard Business Review e realizado por Guy Itzchakov e Avraham N. (Avi) Kluger, em que descodificavam que muitos managers simplesmente evitam ouvir porque temem perder poder (enfim), porque consome tempo e dedicação e finalmente porque temem a mudança. Será que isto acontece somente em contexto profissional?

 

 

Outra ideia com que ficamos é  de que estamos deveras ligados, cada vez mais ligados, mas na verdade, uma das coisas que mais nos liga aos outros é a escuta que lhes damos e que tantas vezes acaba por ser ignorada, e não podemos esquecer que ouvir é parte do nosso compromisso moral para com os outros, como refere Nichols. Poderemos também reflectir sobre se ouvimos quem devemos, mas isso será tema para outro dia.

 

Sem querer entrar nas dicas que transformam indivíduos em robots ou numa espécie de actores em cena, existem algumas coisas que podemos fazer para ouvir: estar atento à linguagem não-verbal (tanto que podemos ouvir); ouvir com atenção e deixarmos os nossos pensamentos por um bocadinho; evitar julgamentos (pelo menos numa primeira fase, por vezes basta só ouvir, sem dar feedback ou nos deixarmos levar por biases); aproveitar o silêncio (e tanto, mas tanto que nos dizem os silêncios); parafrasear (mas não fazer como aqueles indivíduos que repetem as últimas palavras dos outros para sugerir que estão atentos e sabem muito da coisa); fazer perguntas (embora acredite que nem sempre é a melhor "estratégia"). Penso que para lá destas "dicas" que poderemos encontrar em muitas publicações, devemos incluir uma outra e que é fundamental: ouvir mesmo! Estar disposto a isso, sermos também nós um pouco melhores e se não estivermos num dia para ouvir, eventualmente até adiar essa conversa para uma ocasião oportuna e como é evidente, cumprir com a promessa.

 

Na verdade, o que me parece importante é o facto de andarmos imbuídos no ruído à nossa volta e não estarmos atentos a alguns aspectos talvez mais importantes e que, por exemplo, Julian Treasure resumiu por RASA: Receive; Appreciate; Summarize; Ask. Com isso esquecemos também o nosso bem-estar, na medida em que melhores interacções sociais a isso levam, e ouvir promove, sem margem para qualquer dúvida, um melhor bem-estar.

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