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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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19.01.21

Parem de nos chamar racistas!


Robinson Kanes

vincenzo foggi.jpg

Vincenzo Foggini - Sansão e os Filisteus (Pormenor) - Victoria & Albert Museum

Imagem: Robinson Kanes

 

A grande originalidade não é dizer coisas novas mas ser novo diante das coisas velhas.

Vergílio Ferreira, in " Conta Corrente II"

 

Temo que este seja mais um texto onde tenho a perfeita noção que estou em Santa Margarida num treino de munições reais a entrar em campo minado e só com uma galil contra um sem número de plataformas de lançamento de mísseis.

 

No entanto, já estou cansado de ver a turba da interseccionalidade e da cultura identitária que, pela força, me quer fazer crer que sou racista! Já não basta um indivíduo que aquando de uma tragédia (mediática, obviamente) e ainda com os corpos quentes já tem músicas e mil e uma entrevistas e posts nas redes sociais de homenagem aos defuntos. Já não basta ver um outro que parou nos 16 anos mas todos achamos imensa piada (não é nosso filho, se fosse era corrido) e deseja quase a morte dos vizinhos porque lançam foguetes no Ano Novo e lhe incomodam as cadelas (mais um que tem sempre algo na manga quando a morte de alguém traz retorno) e ainda tenho de ver que muita da Academia, sobretudo nas ciências sociais, coloca convicção à frente de ciência e verdade. Interessante que o primeiro fale de discriminação quando muito provavelmente, por ser filho de Paulo de Carvalho e Helena Isabel, apagou excelentes vozes para canto e se tornou uma vedeta com uma música que incluía "ela parte-me o pescoçeee". Deverá ser dos últimos a falar em discriminação e em igualdade de oportunidades. 

 

Socorri-me desta introdução com duas personagens de menos importância neste campo para chegar àquela ideia que começa a ter tentáculos em Portugal e em que eu, por ser branco (será? Em França e países árabes nunca sou considerado tal) tenho um privilégio nato e estou ligado a uma espécie de falange da "supremacia branca", logo tenho de me retratar; de assumir que sou uma besta e que por isso vou submeter-me a tudo o que são opiniões que defendam o "black power" - como se racismo fosse sempre contra negros - e ai de que me atreva a opinar porque, não sendo negro ou adepto de teorias marxistas jamais posso abordar uma realidade que "não conheço". Tenho de ouvir, sofrer e calar porque sou um racista face a tolerantes que não hesitam em me atirar uma pedra à cara se eu só disser "mas isso é discutível". Não, não tenho de aceitar uma vergonha transgeracional imposta por uma quantidade crescente de indivíduos que atacam sem sentido e estão inclusive a maltratar aqueles que dizem defender. Esta ideia de vingança a todo o custo, com base, não raras vezes, em fraca investigação suportada em "estudos de branquitude" (por exemplo em universidades como Oxford) rodeada de uma certa anarquia e contra-opressão, não só alimenta os pólos e os ódios como leva a um fortalecimento de ideologias verdadeiramente racistas. E se mesmo assim não ficar convencido, posso ser "obrigado" a inscrever-me em iniciativas que mais parecem os programas de reeducação praticados na China.

 

Não faltam em muitas universidades por esse mundo fora, cursos e cadeiras, inclusive para os professores, em que existe a obrigatoriedade de frequentar formações que são uma autêntica lavagem cerebral e que pretendem incutir nos "brancos" a lógica de que são privilegiados pela condição da pele e que por isso devem aprender a ser cidadãos tolerantes e a "reconhecer que são gente do pior", herdeiros e portadores dos genes esclavagistas do passado reencarnados em brancos do futuro...  Esta loucura é tal que tem levado a que indivíduos conhecidos da nossa praça sejam forçados a demitirem-se ou até serem despedidos (por pressão mediática) de publicações e empresas. Tamanha insânia tem levado a casos como o famoso "Evergreen", o caso que envolveu um corajoso Bret Weinstein e um cobarde director de faculdade que se humilhou porque preferiu ceder ao politicamente correcto e irreal. Casos como este são comuns, temos o de Yale e do professor Nicholas Christakis, alguém a quem seria impossível de apelidar de racista mas que não resistiu a algo que ainda ninguém entendeu bem o que é: justiça social, chamam-lhe. Tendo em conta que até Kanye West "deixou de ser negro" porque "defendeu" em tempos Trump, não é preciso ir longe para perceber até onde uma certa cegueira pode ir parar.

 

A cor de pele (também existem outros hypes, mas um dia lá chegarei) serve para tudo, e revela um estranho desconhecimento da realidade e do passado, sobretudo para aqueles que acham que é bonito invocar Martin Luther King, mas que jamais devem ter lido/ouvido um discurso do mesmo, pois provavelmente teriam percebido que aquele que dizem ser uma das suas maiores inspirações, afirmou que sonhava que os seus filhos vivessem um dia "numa nação em que não seriam julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo do seu carácter" contradizendo um pouco as expectativas de um James Baldwin para quem a pele negra seria sempre um cartão de identidade e carácter. Tendo em conta que são muitos os que vão a reboque destes discursos, porque actualmente ser anti-racista (mesmo que nem se saiba o que isso é) é ser-se boa pessoa e que por acréscimo nos preserva o emprego (ou talvez não), dá likes (se estivermos no lote dos mais ruidosos) e fama, já podemos ter uma noção onde podemos chegar. Aliás, e o caso recente, deste mês, na Universidade de Sheffield é um claro exemplo de que a reputação pode até levar a que o racismo, ou melhor a discussão deste, seja remetida para segundo plano.

 

Se a isto associarmos a palavras de Haidt que nos demonstra como as redes sociais (e não só) "essencialmente dão o megafone aos extremos é de facto, muito complicado perceber o que pensa a maioria (...) e quando olhamos somente para os que mais alto falam no Twitter ou em qualquer outro lugar (é um claro testemunho) de guerra cultural onde pessoas da direita veem o que querem ver e os de esquerda veem também o que querem ver".  Pelo meio, perdemos a verdade, o espaço para pensar e reflectir e também o espaço para nos vermos como humanos, mesmo que sem aceitarmos esta ou aquela posição, mas pelo menos com um caminho para o debate da verdade, por muito que ela possa custar e seja negada até em alguns meios... E deixemo-nos de publicações ao estilo de "eu vou-te dizer do alto da minha superioridade dez pontos para te tornares anti-racista". Entre toda esta radicalização e entropia, ninguém fala em diálogo e na educação, quando muito tenta adulterar a última de modo a fazer valer os seus intentos.

 

Finalmente, é interessante ver o discorrer de discursos anti-racistas tão inflamados, que não procuram (nem apresentam) soluções e o diálogo, somente contra o Ocidente mas que, apesar de todas as fragilidades, é talvez o local do Mundo onde os direitos de todos os cidadãos estão mais bem salvaguardados, seja por terem uma pele diferente, uma orientação sexual diferente ou o que quer que seja. Como diria Douglas Murray, não estamos a aproveitar este potencial herdado até agora com gratidão mas sim a destruir um trabalho de séculos e que, numa sociedade como a actual, tinha tudo para continuar um caminho de sucesso - porque é um facto, o racismo ainda existe e por muito que me custe, vai existir sempre... Resta fazermos o nosso papel para o reduzir ao máximo, tanto o racismo como muitas outras intolerâncias, todavia, não o transformemos numa guerra cruel, de um só sentido e baseada sobretudo na aparência e no quem grita mais alto, mesmo que implique também varrer outras situações igualmente ou mais fracturantes. Talvez seja o contexto, mas como Sapolsky nos diz, muda o contexto, muda o comportamento e é aí que se pode tornar perigoso.

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