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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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02.12.21

Polarização


The Travellight World

you way or my high way different opinion,opposite disagreement or stand off opinions

Um professor resolve fazer uma experiência com a sua turma:

Escolhe dois alunos e pede a cada um para ficar a uma certa distância da sua mesa, um do lado esquerdo e outro do lado direito. Pede também aos alunos que estão no centro da sala para não se pronunciarem.

Coloca então, em cima da mesa, uma bola e pergunta ao aluno que está à sua esquerda de que cor ela é. O aluno responde  —“é branca”. Repete a pergunta ao aluno da direita e este, confuso, diz —“é preta”.

Volta a fazer a pergunta ao da esquerda “tens a certeza que a bola é branca?”, — sim diz o aluno “tenho a certeza”. “E tu”, diz o professor voltando-se para o da direita — “já viste bem a bola?, achas mesmo que é preta?”.

“Sim” — insiste o aluno já exaltado “é preta! não sei como é que o meu colega não vê, deve estar a precisar de óculos”

— “de óculos precisas tu” diz o outro irritado.

A discussão aumenta e as ofensas começam a subir de tom entre os dois alunos que estão cada vez mais certos de que a sua opinião é a mais correta.

Nesse momento o professor vira a bola.

Os alunos ficam surpreendidos e depois sorriem: a bola tem dois lados, um preto, um branco.

Os dois tinham razão… o seu ponto de vista é que era diferente.

Escrevo sobre esta experiência porque penso que nos pode ensinar algo sobre o mundo polarizado em que vivemos.

A polarização é um problema crescente dentro da nossa sociedade e não é um exclusivo da política. O ditado “a virtude está no meio” há muito foi esquecido e hoje parece que todos temos de escolher um lado, seja quando falamos de politica, vacinas, da crise climática, futebol ou até de coisas bem mais simples como iOS versus android.

Frequentemente, quando ouço pessoas a falar sobre um determinado assunto, elas invariavelmente criticam “os outros” (raramente elas mesmas) por terem pontos de vista opostos: “fulano de tal é um ignorante”, “só pode ser cego”; “ é burro” … e outros mimos semelhantes.

As noticias e informações são escolhidas de forma a alinharem-se com os pontos de vista defendidos — consciente ou inconscientemente a exposição é seletiva.

Isto leva ao crescimento das chamadas “câmaras de eco”, onde as mesmas opiniões são repetidas de volta para quem as emite, eventualmente reforçando a sua visão e potenciando uma opinião mais radicalizada.

Claro, que muitos procuram ativamente outras opiniões e, portanto, podem não ver a polarização como um verdadeiro problema, mas isso não significa que estejam imunes.

Só porque estamos cientes da armadilha da exposição seletiva não quer dizer que a consigamos evitar.

A polarização não é apenas um produto das notícias às quais estamos expostos, é também resultado das conversas que temos com as pessoas que estão à nossa volta, porque afinal todos temos tendência de nos cercar de pessoas que pensam e se comportam como nós. Fazemos amizade porque geralmente temos pontos em comum: gostamos da mesma música, temos a mesma cultura, o mesmo clube de futebol, religião ou afiliação política. Até seguimos pessoas nas redes sociais (maioritariamente) porque nos identificamos com elas, porque gostamos do que dizem ou do que vestem ou do que fazem.

E isto, em última análise, pode atrapalhar o debate democrático de ideias. Num grupo onde todos pensam igual, é difícil desenvolver um ponto de vista diferente, mesmo quando nos preocupamos em conhecer outras realidades. De repente, se não temos cuidado, se não estamos muito atentos, damos por nós mesmos a escolher lados e a ser obstinados, demonizando quem tem uma opinião diferente da nossa.

Ao ver o mundo a preto e branco, em vez do arco-íris complexo que ele realmente é, só temos a perder. Lá porque nós estamos certos, não quer necessariamente dizer que o outro está errado. Ele pode simplesmente estar a ver a bola do outro lado da sala.

 

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