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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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04.05.21

Requisito para Humoristas e Comentadores: Ter Cara de Parvo...


Robinson Kanes

 

IMG_2236.jpg

Autor Francês - Retrato de um General, (Alte Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Há uma coisa que nos últimos tempos me tira o sono... Tira-me mesmo, não consigo dormir e perco horas do meu dia a pensar nisso - porque é que agora toda a gente diz "vÁcinas" e um indivíduo de seu nome Pedro Simas está em todo o lado, parece um take away de sushi ou uma loja do chinês com livros à frente e atrás... Mas isso agora interessa pouco.

 

O que tenho notado é o facto de hoje em dia existir uma profissão muito importante para os cidadãos e que é a de humorista ou de comentador (por acaso o Simas de quem falei, também é... Comenta tudo), sobretudo daqueles que se julgam diferentes e sem "papas na língua" mas mais não fazem do que seguir a tendência, ou aquilo que lhes pedem para fazer. Aquela espécie de humoristas que mais parecem políticos mas com a informalidade da piada fácil... Também eles, uma espécie de corporação, onde só alguns iluminados parecem ter lugar. Acrescento ainda aqueles que são jornalistas e humoristas e que no somatório dos dois são apenas activistas políticos com fraco sentido de imparcialidade. Neste pote, incluem-se ainda os humoristas para quem no seu activismo o humor não tem limites... Desde que não choque com os hypes e com aquela malta que lhes arranja emprego por mais que sejam inúteis.

 

Para tal, basta falar mais alto, soltar umas chalaças, vestir-se como um miúdo de 16 anos e deixar crescer a barba - tentar fazer rir mas sem tocar nos temas fracturantes - alguns optam pelo fato, numa espécie de quem já passou a revolução ao lado do povo e agora, no Politburo, assume a posição de quem sabe o que é melhor para os desgraçados. Também podemos sempre reforçar com uns óculos de massa para dar aquele look de pseudo-intelectual mas que frequenta os locais mais badalados da noite periurbana de Copenhaga ou até de Helsinborg. Tudo isto tem lugar enquanto se riem ou chamam nomes ao povo (essa gente idiota) por ter determinado comportamento mas... depois fazem exactamente o mesmo ou pior. Por vezes são apanhados na teia, mas como bons aprendizes de políticos só bem sucedidos em democracias ditatoriais mediterrânicas, desaparecem durante umas semanas para depois voltarem em força.

 

Apesar de tudo isso, eu pergunto: porque é que todos têm de fazer trejeitos de boca ou com olhos? Porque é que o esgar tem de estar presente? Talvez tenha algumas respostas: primeiro porque somos todos tão especiais e únicos que o ideal é fazer diferente fazendo aquilo que todos fazem - isto que escrevi não se percebe, pois não? Óptimo! Era aí que eu queria chegar.

 

Uma outra situação, pode estar relacionada com o facto do humorista ou comentador, ao mostrar tal imagem, queira dar a entender que, apesar de ser amigo do povo e de estar com ele, vive num patamar que o coloca acima de todos esses que o devem admirar ou até atirar ovos e tomates podres - sim, quantos não têm sucesso só porque fazem questão de ser mal vistos pelo público? Falem mal deles, mas desde que falem, com o Futre resultou... Eu sei que muitos não compreenderão como é que um Tiago Dores tem público, ou até o filho de alguém que diz ser escritor está em todo o lado... Eu também não, mas há espaço para todos, mesmo para as inutilidades. 

 

Com efeito, volto a colocar uma questão: é doença profissional? Se assim for, as seguradoras, a ACT e a Segurança Social têm de fazer o seu papel, já para não falar de técnicos de segurança e higiene no trabalho com especialidade em humoristas e comentadores com cara(comportamento) de parvos! Penso que isto acontece porque já são poucos os humoristas que são promovidos a especialistas em cultura e literatura só porque, no meio de erros infinitos, dizem uma palavra daquelas que espanta meio mundo - admitamos que esses já têm o seu lugar na praça.

 

Será que, se a partir de agora, surgir com a sobrancelha bem levantada e com ar de enfastiado com a sociedade - a mesma que eu preciso para ser alguém - me vou tornar um humorista de sucesso? É uma questão de tentar... a fazer um esgar enquanto olho para o ar e me interrogo sobre um tema que está nas bocas do mundo e a pensar se hei-de dizer mal de Bolsonaro, Trump ou Boris Johnson... Dos dois últimos já não existem cartas para jogar, resta o primeiro. Por falar nisso, e permitam-me virar na curva... Já alguém reparou que praticamente ninguém criticou a reacção da Ìndia e outros países à pandemia? Se a isso juntarmos os ataques aos agricultores, já podemos imaginar que a notícia é mesmo um hype. Fossem os Bolsonaros (que enfim, já mostraram o que são) ou fosse no Brasil e...

 

Posso sempre tentar também criticar os liberais e os capitalistas, dizer mal de todos aqueles que defendem que é com o mérito e trabalho que se consegue algo, isto enquanto vendo a Democracia e a Liberdade travestida de ideologias que mais parecem uma cartilha digna de um romance Huxleyano... E também as esqueço quando do lado de lá me acenam com uns bons milhares para ser cara de empresas cujos accionistas presidem a regimes sanguinários e totalitários. Mas eu sou cool, eu sou diferente, luto pelos direitos dos gays, das mulheres, dos pretos (sim, o racismo moderno está focado nos negros e a moda dos asiáticos não parece estar a colar tanto) mas encho os bolsos com dinheiro de sangue... Desde que esse sangue não seja mediático, who cares... 

 

Tudo a bem da liberdade e do povo, afinal, nas vagas políticas demoníacas existem sempre palhaços para animar o povo que ou morre de fome ou é fuzilado por dizer não...

 

P.S.: acha que este texto é parvo? Também é parvo perceber que todos sabiam da vergonha que se passava em Odemira e de repente surjam muito admirados como se tivesse encontrado a pólvora. Como dizia um famoso jovem que apareceu num vídeo do youtube com uma grande piela... "tá beeeeein".

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Para quem quiser ler: falei de Huxley, e nada como recordar "A Ilha"... O fim da esperança... A entrega ao controlo do mal e a realidade face à fantasia: muitas vezes, é o mal que triunfa. Um livro para nos fazer desistir, ou bem pelo contrário, para nos fazer reagir.

Para quem quiser ouvir: os Vetusta Morla são uma das minhas paixões. Poderia escolher a discografia toda, mas deixo "Cuarteles de Inverno" e "Golpe Maestro", dois dos seus maiores sucessos... Estão sempre lá e do melhor que se faz em Espanha.

Para quem quiser comer e beber: os Severianos são uma referência entre Torres Vedras e a Lourinhã. É impossível uma deslocação ao Oeste sem passar por lá. A simpatia dos colaboradores e da família é qualquer coisa - os pratos são fantásticos são muitas vezes a delícia depois de um dia no mar ou na praia. Entre uma espetada de tamboril e uma açorda de marisco, fica a sugestão que repete de vez em quando nestas paragens: um Casa Santos Lima Arinto e Chardonnay 2019 - um branco para prolongar um jantar de Domingo até à madrugada. Juntar estas duas castas augura sempre um excelente resultado.

Para quem quiser ver: filme vencedor no Festival de San Sebastián, "O Começo" de Dea Kulumbegashvili é uma agradável surpresa que nos transporta para uma Geórgia real, mas sobretudo para uma realidade que cada vez mais seres humanos enfrentam, como se a História nada nos ensinasse. Nem tudo são rosas num mundo cada vez mais igualitário... Tanta faladura e tão poucos resultados.

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