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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

28.04.20

Shh... Silêncio...


Robinson Kanes

 

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

Dei um destes dias a recordar a recente passagem pelo "Bellas Artes" de Madrid onde tive oportunidade de ver a peça de Alberto Conejero, "Todas las noches de un día". Fiquei ainda mais encantado, ao recordar esse passado recente, com o facto da mesma estar online e mostrar a qualidade do texto e de dois actores, nomeadamente Ana Torrent e Carmelo Gómez. Se a peça, só por si já dava para um artigo, foco-me sobretudo na entrevista de Carmelo Gómez ao "El Mundo".

 

Nesta entrevista, Gómez abordou várias questões políticas e sociais de Espanha, mas houve uma questão que me intrigou, nomeadamente a dos silêncios. Para este, os silêncios no teatro já não são tolerados e até as "tosses provocadas" são a expressão de que o público não está para aí inclinado... O silêncio, agora visto como um acto de provocação num mundo que não consegue viver sem o ruído, uma espécie de entrega a um certo sonâmbulismo individual como lhe chama Lipovetsky.

 

Haverá espaço para o silêncio? Haverá espaço para que possamos, nesse silêncio, respirar, reflectir e agir? Em alguns casos funcionarão as novas censuras como fomentadoras do ruído ao invés das anteriores que procuravam o silêncio? Será que o jaleo é hoje uma censura auto-imposta? São demasiadas questões, mas a importância do silêncio é cada vez maior...

 

O recente confinamento ajudou-nos talvez a pensar o silêncio e a perceber a importância do mesmo, apesar das tentativas desesperadas de muitos para fazer ouvir o seu estrépito... Sob pena de caírem no esquecimento ou abrirem espaço ao pensamento. Hoje é difícil que o trabalhe fale por alguém e por isso, sem estardalhaço comunicacional não há palco para muitos dos fracos profissionais e fracas personagens que alimentam a nossa praça.

 

Esperemos que muitos dos silêncios, entretanto criados, tenham servido para gerar uma melodia sincronizada de um novo mundo, de uma nova forma de estar ou até de uma forma de estar igual, mas sem vendas, com máscaras sim, mas sem vendas. Passámos a ouvir as aves, os sons da natureza - incrível como tantos só recentemente tenham descoberto que as suas ruas têm mais aves do que os tradicionais pombos - e passámos também a ouvir os sons daqueles que nos rodeiam e quiçá até de nós próprios.

 

Talvez o silêncio, e na entrevista de Gómez essa mensagem acaba por estar presente, nos ajude a pensar o colectivo mas também o individual, como dois pratos da balança que se devem complementar e não subjugar. Talvez nos permita que "os homens verdadeiramente grandes da História universal (possam) meditar, ou (encontrar) sem se dar conta, a via que leva aonde nos conduz a meditação". As palavras de Hesse, contudo, complementam-se com o facto dos outros, os que não meditam (e não observo strictus census conceito de meditação) "acabarem por soçobrar e ser vencidos porque as suas tarefas e os seus sonhos ambiciosos se (apoderaram) deles e os (possuiram) a tal ponto que perderam a capacidade de se desprenderem da actualidade e dela se distanciarem".

 

Andamos a aproveitar pouco os silêncios e talvez esse pouco aproveitamento, ao invés de criar uma melodia em torno de nós, seja no trabalho ou na vida pessoal e social, dê lugar ao ruído que nos submete a uma espécie de destruição da comunicação inter-humana e até de capacidades individuais de fazer mais e melhor, seja no já referido trabalho, seja até na sociedade que nos rodeia... 

 

O silêncio, esse vai sendo interrompido por espécie de "trilo del diavolo", essa anti-catarse tartiniana onde o violino ou nos leva à morte ou à vida...

 

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