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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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27.04.21

Tornar-se um Doente Mental em Portugal...


Robinson Kanes

robinson_kanes.jpgImagem: Robinson Kanes

 

Todos os homens são loucos (...) mas que é um destino humano senão uma vida de esforços para unir esse louco e o universo.

André Malraux, in "A Esperança"

 

Em tempos, dizia-me um alemão que em Portugal ou se alinha no status quo ou se morre novo com uma qualquer doença mental. Cada vez mais reconheço que o indivíduo oriundo do país que fabrica brinquedos caros para o povo luso tem toda a razão. 

 

A pandemia veio mostrar uma realidade que todos sabemos, mais de metade da populaça anda maluca da cabeça. Se tivermos em conta que mais facilmente se gastam €1200 num smartphone do que €50 num psicólogo, encontramos de imediato uma explicação... E já nem falo de psicanalistas que protelam a saída dos seus pacientes com histórias e mais histórias quando os apanham, falo mesmo dos outros que os procuram emancipar e despachar o quanto antes.

 

Na semana passada, de facto, não faltaram por aí figurinhas que nos fazem pensar se não estamos nós também malucos.  Começou com mais um daqueles momentos em que orgulhosamente ostentámos que somos os melhores do Mundo na arte do pedinchar... Quando a mendicidade para sustentar os nossos luxos tem lugar, somos logo os primeiros a apresentar planos, mesmo que feitos em cima do joelho e ninguém perceba muito bem o que são políticas sociais... O grande tópico dos milhões. Somos os melhores do Mundo, como um certo Marcelo gosta de dizer... Preocupemo-nos em ser um pouco melhores do que somos e em fazer as coisas bem e essa dos "melhores do Mundo" é irrelevante... Maldito folclore provinciano. A pedir que nos sustentem não somos nada malucos... Todavia, esse pensamento é errado, na medida em que quem nos envia dinheiro só pode estar chalupa.

 

Experimentem também passear o vosso cão num descampado, noite cerrada, e darem com um indivíduo ostentando um mini-rádio com música duvidosa a dançar entre as ervas altas e as árvores. Dança para trás, dança para a frente, sacode as moscas... Estava feliz, pelo menos isso... Ou melhor, feliz até tropeçar numas pedras ou nuns ramos e bater com os queixos no chão. Salvem as mulheres e as crianças que eu sei nadar... Quando gozarem com a malta que andava com grandes sacas de cimento ao ombro e a ouvir música, lembrem-se da malta das tortas electrónicas que exala som quando caminha... No entanto, sempre em modo de banda sonora para a vida. Se os indivíduos da música de elevador descobrem isto, têm um mercado imenso para explorar. 

 

Imaginem também (e esta nem foi comigo mas com a alemã) que de repente, no trânsito, estacam ao vosso lado, abrem o vidro e apitam... Até aqui, tudo normal... Mas abrem o vidro, vocês olham com ar de poucos amigos e o tipo que está dentro do carro, aponta para o auto-rádio, aumenta o volume e diz: "Estes gajos! Estes gajos! Os gajos não nos querem dar o dinheiro da bazuca!". Bazooooooooka... Só me consigo lembrar da música e pensar numa noitada valente num qualquer espaço nocturno a afastar os males. Eu sei que foi na margem sul, mas mesmo assim... E sim, burgueses do "fique em casa", estou desejoso de ir para a noite apreciar a vida... Eu sei que é mais fácil ficar no WhatsApp ou na Netflix a comer pipocas, mas permitam-me, pode ser?

 

Também qualquer um pode ficar doido, quando toda a gente que mete conversa convosco a propósito de terem um pastor-alemão, perguntar sempre se tem displasia da anca. Não! Não tem e é o mesmo que eu perguntar a toda a gente com quem falo algo do género: você é estúpido?

 

Se mesmo assim ainda não tiverem entrado numa loja de indivíduos do Bangladesh e feito cinco reféns enquanto exigem que vos deportem para o Gabão, não falem com aqueles cavalheiros que dizem ter comprado um carro, terem dado grandes passeios nesse mesmo carro e com os amigos e nunca perceberem porque é que tiveram de "tchimbar" uns milhares no início do ano à Autoridade Tributária e no mês quatro dizem que andam apoquentados por espíritos porque veio outra carta para pagar ainda maior - não percebem porquê... Eu percebo... Faz-me lembrar um indivíduo que em tempos odiou a GNR porque lhe apreenderam a carrinha e a situação ainda não está resolvida. Eu acho que é culpa do Cabo Vilaça que adora entalar malta que tem carrinhas dentro da legalidade... "Oh caraças, vão-me fechar a loja, só porque não tenho licença de utilização".

 

E finalmente, afinal bela poesia não faltaria para continuar a declamar, porque é que uma grande parte dos restaurantes se queixou de não ter direito a apoios a propósito da pandemia, mas não ficou contente pelo facto de ter apresentado mais lucros nos primeiros três meses de 2020 (em plena pandemia e confinamento) do que em toda a história dos respectivos estabelecimento? É de ficar maluco... Aliás, de ficar maluco é vocês terem indivíduos que querem fazer coisas em Portugal (inclusive investir) e os potenciais parceiros que dizem estar a morrer à fome nem quererem saber ou até espantar a potencial clientela... Bazoooooooka! É motivo para um holandês de nome Jeroen Dijsselbloem dizer "e o burro sou eu?". Todavia, uma coisa é certa... Copos e mulheres, é cada vez menos uma área onde o povo português gasta dinheiro. Antes fosse... E ai daquele que o faça que é logo acusado de tudo e mais alguma coisa, que isto de ser hetero, saber escrever e apreciar um certo e sencillo "buen vivir" começa a ser um problema. 

 

Melhor que isto, só exaltarem um certo professor (comentador? Vendedor de livros?) que chegou a Presidente da República. Parece que agora quer transformar ditadores em paladinos da liberdade... Uma espécie de indivíduos que descobriram, numa noite mal dormida, a liberdade. Uns querem apagar a História e até o Padrão dos Descobrimentos querem implodir, já outros querem distorcer essa mesma história... Qual das duas facções a pior... Até porque, quem viveu mesmo o 25 de Abril, sabe que a liberdade do povo não foi propriamente o mote para alguns quartéis se abrirem à meia-noite... E também todos sabemos quem é que pediu para que se enchesse de bastonada no lombo os indivíduos que protestavam contra a guerra colonial, e no fundo, contra a ditadura... Isto de filtrar a história, não é só coisa da União Soviética e da malta do Bloco e do PCP - por estes, também ontem ninguém se tinha lembrado de uma certa explosão nuclear...

 

Boa semana...  

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  • Para quem quiser ler: como não poderia deixar de ser, do psiquiatra e professor José Luís Pio Abreu, o já clássico e obrigatório "Como Tornar-se Doente Mental". Do melhor, e de forma leve, que já se escreveu no âmbito da saúde mental... Vai fazer muita gente encostar alguns livros para canto e sobretudo começar a olhar para quem sabe e menos para quem diz saber. E Pio Abreu vai às aulas, já outros são meninos para passar um semestre na televisão e na rádio enquanto os alunos desesperam. Apesar de, no final do semestre a nota à cadeira ser bem apetecível.
  • Para quem quiser ouvir: ninguém é perfeito e eu também estou longe desse feito. Em 1978 estreava um sonoro que ainda hoje faz a malta abanar o rabo... Em 1978 ainda nem a minha mãe conhecia o meu pai... Mas caramba, quem é que não tem saudades de vestir uma camisa de linho, colocar um Tommy Bahama ou um Fedora e dançar? Copacabana, de Barry Manilow... Ou então, num chill mais relax, a "Fever" dos belgas Balthazar também faz das suas...
  • Para quem quiser comer e beber: em tempos, por Melgaço, procurei a "famosa" Adega Sabino... Tão famosa que se dá ao luxo de recusar clientes com sala vazia e mostrar uma falta de simpatia muito pouco comum naquela zona... Abençoado o dia em que isso aconteceu... Descobrimos o "Cantinho do Adro" e um bacalhau com pimento e batatas às rodelinhas de comer e chorar por mais - sem esquecer a tal simpatia. Se na esplanada, durante um dia quente, lhe juntarem um Quintas de Melgaço, não mais esquecerão esse dia. Além disso, este verde é um puto de um Alvarinho e podem trazer umas caixas pois as caves são bem perto.
  • Para quem quiser assistir: estou curioso com esta peça no Teatro Meridional... A "Teoria da Relatividade"de Rui Xerez de Sousa. Não sei, mas a partir de 5 de Maio é muito provável que lá dê um salto.
  • Para quem quiser ver: Outra curiosidade que conto desvendar... De Thomas Vinterberg e com o brilhante Mads Mikkelsen, "Druk" ou "Mais uma Rodada". Brilhou em Cannes, nomeado para óscares e com a agravante de ter sido filmado num momento em que o realizador perdeu a filha. Vale a pena ir ver por tudo isto e sobretudo pela história. Melhor só ter ganho um óscar e toda a gente desatar a dizer que a supremacia branca caucasiana premiou mais um dos seus.

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