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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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18.06.24

Turismo: do bom exemplo ao total desastre.


Bruno

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Imagem: Bruno Nunes dos Santos

 

Quanto mais sabemos menos conseguimos prever.

Yuval Noah Harari, in "Homo Deus"

 

O turismo como uma indústria que cresce desmesuradamente acaba por ser uma espécie de “pau de dois bicos”. Se por um lado oferece grandes oportunidades (benefícios para a economia, intercâmbio cultural, visibilidade…), por outro apresenta também alguns desafios (ambiente, infraestruturas, recursos naturais, tecido social…).

 

De forma acatastática também ouvimos que temos de moderar o turismo e aplicar múltiplos critérios de sustentabilidade mas ao mesmo tempo defendemos que o número de turistas que ainda nos visitam  pode ser mais. Tudo isto sem acautelar a capacidade de carga - o querer algo e o seu contrário consoante os ventos da discussão e não raras vezes ao sabor de alguns lobbies

 

Neste momento, em algumas cidades e até regiões, o turismo está a passar de “bom amigo” para o pior dos inimigos e não é só em Portugal onde o exemplo de Barcelona que tão badalado foi parece não nos ter ensinado muito.  “Longe” vão os tempos da natureza e da responsabilidade do período pandémico, da grande mudança de comportamentos que todos iríamos encetar. 

 

Ver o turismo como um bicho papão, porém é um erro crasso. Estamos perante uma indústria que fomenta a criação de emprego (apesar de ser uma das áreas com salários mais baixos e com baixo grau de inovação), desenvolvimento económico como também o nascimento de pequenos negócios e a promoção da diversidade (a indústria da paz como alguns defendem) entre outras conquistas. 

 

Não obstante, é contraproducente colocar esta atividade no topo das prioridades e até continuar a canalizar fundos e mais fundos para a promoção da mesma em detrimento de outras muito mais estáveis, estruturantes e estrategicamente mais viáveis e que fecham muitas vezes por falta de aposta ao mais alto nível nas mesmas e não apenas por questões de mercado. 

 

Acredito também que o turismo criou um caminho de oportunidades que hoje podemos agarrar e que vão para além da actividade em si. No caso português, posicionou-nos como um país que muitos conhecem e que valorizam e é esse passo que agora também tem de ser dado com outras indústrias, até porque algumas já o estão a fazer. Invariavelmente, desde a EXPO 98 que nos centramos em criar awareness e a investir milhões em eventos, a comprar prémios e a engrandecer pequenos feitos a troco de muitos milhões em gastos de comunicação. Em muitos aspectos ainda não saímos da primeira etapa do advertising funnel não só em termos de estratégia mas também em termos de investimento.

 

Esse passo tem de ser dado agora pelas nossas marcas, pela nossa indústria, pela nossa produção agrícola. Podemos afirmar que não somos competitivos, podemos também afirmar que não temos suficiente produção, mas numa era em que existem nichos para tudo, não tenho dúvidas que as oportunidades não faltam. Temos de ir para lá dos shared services centres, dos unicórnios (muitos deles que se revelam póneis) criar consórcios que não assinem apenas memorandos e celebrem protocolos que em nada resultam e que permitam que os múltiplos interesses possam ter um terreno para se desenvolverem. Além de que actividades industriais e agrícolas também geram turismo.

 

Portugal era/é visitado pela sua autenticidade, pela sua gastronomia ainda intocada por devaneios mediáticos, pelas suas pessoas gentis e afáveis e por múltiplos produtos e paisagens que nos tornam (tornavam?) singulares na Europa Ocidental. Atualmente todos estes pontos positivos se têm vindo a perder e corremos o risco de no longo prazo ter um problema grave em mãos. Este problema nascerá não só por questões de adaptação ao mercado mas também de muitos actores do turismo não procurarem conhecer o cliente mas acreditarem conhecer aquilo que o cliente quer.

 

A massificação de promotores, influencers, viajantes a tempo inteiro e a necessidade de encher sites e páginas de jornais tem contribuído também para este cenário. Portugal e as suas cidades não podem nem devem ser uma Disneyland, é isso que nos distingue dos demais sendo que já vamos tendo concorrência, sobretudo a leste. Na verdade, os resultados podem não ser imediatos, implica tempo e uma coragem muito grande para segurar a tendência das massas mas não é impossível, mesmo quando dizem que a nossa estratégia vai falhar porque não é aquilo que outros estão a fazer.

 

Por vezes bastam planos de acção tão simples e francamente mais económicos, como o desenvolvimento de estratégias que visem manter a essência de um destino, o estilo de vida, a cultura, as tradições, a gastronomia e as pessoas. Esta é uma abordagem que dispensa grandes investimentos, apenas necessita de conhecimento, profissionais competentes e vontade de trabalhar em prol de. A isto acresce uma descentralização da oferta, uma aposta no mercado sazonal e claramente o investimento na digitalização e na melhoria da mobilidade. Mais uma vez, não é oneroso, mas implica compromisso e profissionais bem pagos, mas mais que isso, reconhecidos e que não encarem a profissão ou o cargo como algo que poderá ser mantido apenas pela via do “trabalho para a vida”, do networking ou por simples conforto.

 

Ainda uma nota para o “luxo” no turismo. Um ponto é termos produtos de valor acrescentado, outro é colocar o rótulo de “luxo” ou “luxury” em tudo o que se tem e se faz. O pastel de nata de luxo, o bacalhau à brás de luxo e um outro sem número de designações e práticas que não beneficiam a atividade no longo prazo. Por incrível que pareça, também isto tem afastado muitos turistas e não são propriamente aqueles que “não queremos”, até porque basta aceder a muita da oferta “luxury” para perceber isso. Na gastronomia, por exemplo, não faltam flops, inclusive com origem em grandes defensores e conhecedores da gastronomia.

 

O equilíbrio, deverá ser cada vez mais a palavra de ordem, e não é educando o turista que vamos mudar alguma coisa já amanhã, até porque são processos altamente morosos e cuja iniciativa já deve partir de um leque bem mais vasto de “transformação” de comportamentos, sobretudo numa óptica dos ODSs ou iniciativas similares.

 

Uma nota final também para nós, cidadãos deste país turístico. Compete-nos fazer a nossa parte, preservando as nossas tradições, defendendo o que é autêntico. Voltarmos a ser portugueses atlânticos mas com uma grande dose de mediterraneidade e acima de tudo apostar em áreas que não nos tornam tão dependentes deste sector que sendo indispensável, é também aquele que é mais permeável às crises. E convenhamos, por muito que agora pareça que todos estejamos em Portofino ou em Cannes (basta percorrer Portugal para aferir da demonstração de riqueza), no mundo futuro, os desafios vão ser mais que muitos e temos de estar preparados com uma economia e uma sociedade mais fortes que nunca.

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Para ler: sendo o tema o turismo, porque não uma leitura muito recente sobre o tema, nomeadamente numa lógica de marketing trends e sustentabilidade. Um dos melhores manuais que tive oportunidade de ler. De Maria Palazzo e Pantea Foroudi, "Contemporary Marketing and Consumer Behaviour in Sustainable Tourism", um manual extremamente útil e uma ferramenta ideal para preparar o turismo, a sua comunicação e operação numa lógica sustentável.

Para ouvir: uma das melhores bandas sonoras de sempre e sem dúvida a ideal para acompanhar uma viagem, mesmo que no nosso canto e onde apenas a alma deambula por esse mundo fora. John Barry e a banda sonora de "Out of Africa" ou se preferirem, "África Minha". 

Para assistir: quem andar em turismo por Guimarães,dia 21 nos Banhos Velhos (Caldas das Taipas) uma das minhas bandas portuguesas de eleição, os "Best Youth" apresentam o seu último álbum com "Moullinex". Um local fantástico e com música fantástica, a noite de sexta promete.

Para ver: o documentário muito interessante da ARTE acerca do "Perigo no Paraíso". Um alerta de como um dos últimos locais mais bonitos e preservados da Europa se arrisca a ser destruído, de Tróia à Comporta os riscos já estão à vista - e se agora também é a palavra "luxury" que reina, sabemos sempre como acaba.

Para comer e beber: esta semana tive finalmente a oportunidade depois de um treino de montanha, de conhecer a "Tasquinha do Alto". É um daqueles locais onde se come do bom e do melhor mas onde é preciso espírito. Um local que todo o turista devia experimentar e ignorar alguns aspectos menos polidos, mas afinal é isso que também lhe dá aquele encanto. Em Estorãos, Fafe, muito ruído, muito vernáculo, comida bem temperada e vinho que vai do jarro à caneca de barro como uma cascata. Têm cliente. Para beber, um  verde para o Verão: Socalcos do Bouro, o blend Loureiro e Trajadura é bem apetecível.