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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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Um espaço de pensamento livre.

30.05.21

Um Lanche no Generalife entre Ataques de Muza e as Façanhas de Tarfe e Pérez de Pulgar.


Robinson Kanes

alhambra_granada (12).jpgImagens: Robinson Kanes

 

A tarde caminha para o fim e tanto eu como o Zagal já nos encontramos cansandos, sobretudo o segundo - o peso da idade e as preocupações com o reino proporcionam tamanho estado de cansaço físico e mental Saímos da área do Pátio dos Leões passando pelos banhos e por salas que anos mais tarde virão a ser ocupadas pelos reis católicos – isso não disse àquele soberano – e pela sua corte.

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Chegamos a uma área com vistas fantástica para o Albaicín e para o Sacromonte. Escusado será dizer que por muito que estejamos impressionados, o Alhambra oferece-nos sempre mais uma emoção e desta feita dou comigo na área do Palácio do Partal, ou simplesmente Partal. Um conjunto de jardins projecta-se diante deste pequeno palácio, transportando-nos, mais uma vez, para um cenário do médio oriente, para um cenário difícil de igualar na Europa! Um pórtico com cinco arcos acolhe as fragrâncias que chegam dos majestosos jardins e é ultimado pela Torre de Las Damas. Aqui está a essência do Alhambra, pois atribuindo-se a sua construção a Muhammad III, será o mais antigo palácio do complexo. Sento-me junto ao enorme tanque que antecede a entrada pelo pórtico e lavo o rosto, à boa maneira árabe.

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O Zagal, orgulhoso do seu reino e da sua cidade, convida-me a aproximar da varanda e é aí que escuto o fervilhar do Albaicín, os pregões, chamadas para orações e o vai e vem de mercadores e clientes que ecoa por aquelas ruas e se estende até ao Sacromonte. Quem diria que o Partal só recentemente (há cerca de um século) foi considerado como parte do complexo... aliás, o tecto em madeira da Torre de Las Damas é um dos ex-libris do Museum für Islamische Kunst del Staatliche Museen Preussischer Kulturbesitz em Berlim.

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Na varanda deste palácio, sou convidado para um lanche no Generalife. Aceitei de imediato... até porque é de mau tom recusar estas ofertas, eu que o diga desde que coloquei os meus pés pela primeira vez num país muçulmano. Passamos pelo que é agora a Capela do Partal, - que de capela tem pouco ou nada – e percebo que sou levado pelos majestosos pátios e jardins na direcção do Generalife. Atribui-se este nome ao termo “jardin”. Contudo, existe quem lhe dê outras origens como “Huerta del Zambrero”, “el más elevado delos jardines”, “casa de artifício y recreo” e muitos outros, sendo o mais consensual “Jardin o Jardines del Alarife”, ou seja o Jardim dos Arquitectos ou Jardim dos Construtores.

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Tão perto, mas tão longe do complexo principal, este jardim era o local perfeito para o descanso da família real muçulmana, com uma vegetação singular. Não faltam as tradicionais árvores de fruto - ainda hoje é possível roubar um dióspiro - e com enormes pátios. Estamos numa villa que permite esquecer todas as dificuldades da administração de um reino e consequentemente repousar, nem que por breves horas, no paraíso. Observo o caminho dos ciprestes e o caminho das nogueiras, ambos ladeados pelas árvores que lhe dão o nome, até entrar num edifício com um enorme tanque central onde, num dos cantos, se encontra uma mesa com tudo o que um rei merece: sumos naturais (laranja sempre), infusões várias, doces e compotas de todas as origens, pão e alguma carne, sem esquecer uma pastelaria singular, ao nível das melhores de Istambul e Ankara!

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Sentamo-nos, o Zagal mostra um sorriso e diz-me para transmitir um recado a Castela, nomeadamente que o reino não cairá nas mãos destes e só após a morte do último soldado isso poderá eventualmente acontecer. Convida-me para visitar o mundo muçulmano: conhecer Orão, ir ao Egipto, deambular por Marrocos, entrar no médio-oriente, passar em Samarra e por lá me deixar contagiar vagueado por diferentes países e reinos até encontrar o descanso em Samarcanda! Prometo-lhe que tudo isso farei, como também lhe prometo o respeito pela sua cultura e pela neutralidade na batalha que se desenrola. Também ao Zagal, sobretudo ao seu povo, agradeço a herança que me deixou: o sangue árabe que também em mim corre e que no fundo se mistura também com o sangue judeu, romano, fenício e outros tantos que me percorrem as entranhas.

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Após o lanche, despedi-me e abandonei o Generalife pelo Pátio da Sultana, um jardim mágico com fontes que outrora alimentaram os banhos de todos aqueles que tiveram a honra de habitar dentro do complexo. Saio pela maior e mais impressionante porta do complexo, a Porta da Justiça (existem mais quatro, a Porta dos Sete Pisos, a Porta do Arrabal, a Porta d’Armas e a Porta do Vinho) desejando que essa mesma Justiça presida aos combates que aí virão. Levo comigo também a mágoa, de conhecer o destino do Zagal e saber que não mais o verei.

 

Regressando ao assédio a Granada, encontramos as forças de Castela e Aragão em frente da cidade. De facto, Granada apresentava-se praticamente como uma espaço impenetrável com grandes muralhas e enormes baluartes. Do lado de Castela, D. Fernando sabia que um combate pela força levaria a um número de mortes que o rei não poderia suportar. Novamente, o monarca precisou de recorrer a uma estratégia menos violenta, pelo que voltou a chamar a rainha para que viesse para o acampamento. Esta prática já anteriormente vista, nomeadamente em Málaga, não só mostraria aos mouros que os intentos de Castela e Aragão eram firmes, como também a moral das tropas seria resgatada, como sempre o era com a presença da rainha católica. Do lado de Granada, Muza continuava a perpetrar, com as suas tropas, assaltos constantes ao acampamento cristão. Procurava por todos os meios enfraquecer as forças do inimigo e algumas vezes com bastante sucesso. Os mouros, sob o comando deste guerreiro, não escassas vezes, tentavam também provocar os cavaleiros cristãos para a batalha, mas estes tinham ordens directas do rei para não se envolverem em escaramuças.

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Um dos episódios mais interessantes, foi o de um cavaleiro mouro, Tarfe. Este cavaleiro penetrou as linhas do inimigo, invadiu o acampamento e enviou uma lança que ficou espetada bem perto da tenda dos soberanos de Castela. Nessa mesma lança, estava atado um bilhete que trazia anotado o alvo da mesma: a rainha! A indignação foi tal que um dos mais afoitos cavaleiros cristãos, já conhecido pelas suas façanhas algo... fora do normal, reuniu um grupo de 15 homens e encetou uma expedição altamente perigosa e ambiciosa. 

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Hernando Pérez de Pulgar, ao anoitecer, com os seus 15 homens, conseguiu penetrar por uma das portas da cidade, apanhando os guardas desprevenidos a dormir. Daí partiu em direcção à mesquita da cidade e gravou nas portas da mesma uma inscrição: Ave Maria. Já imaginamos Pérez de Pulgar e os seus homens a percorrerem as perigosas ruelas de Granada até chegarem à mesquita e ainda terem sangue frio para, por puro desafio, proceder a tal empreendimento. O conflito, apesar de toda a violência, ainda tinha espaço para estas pequenas habilidades de provocação e desafio, de certa forma recheadas de algum humor.

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Por sua vez, a estratégia de D. Fernando era agora, com o acampamento a cercar a cidade, vencer como em Málaga, através da fome e da escassez de recursos através do corte de abastecimento.

 

Continua no próximo Domingo...

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Episódios Anteriores:

Aben Hácen e Zahara

el Zegri e Ronda

Salobreña e a Morte de Aben Hacén

Córdoba... O Quartel General Cristão

Málaga: O Início das Hostilidades

Málaga: O Desastre e a Capitulação

Da Serra Nevada e das Alpujarras se Retirou o Zagal... Entra Granada

O Alcazaba do Alhambra e a Inspiração de Aben Hácen...

À Conversa com o Zagal no Alhambra...