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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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22.06.21

Um Sírio em Český Krumlov


Robinson Kanes

cesky_krumlov.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Estava uma tarde de frio, de um frio aconchegante, longe daquela intensidade que nos congela os ossos quando a Boémia decide testar os limites do sofrimento humano. A baixa temperatura, associada ao tempo nublado, convidava a uma entrada na "ilha" e a uma das suas praças onde, numa pequena feira de Natal, se poderia comer uma carne assada ou então o tradicional  "trdelník". 

 

Não sentimos a simpatia dos vendedores daquela praça, ou talvez esse espírito não estivesse em nós, afinal já eram quase 300 quilómetros desde Bratislava e a fome tornáva-nos mais agrestes. Procurámos por esse espírito ao longo das ruelas de uma das belas cidades do centro da Europa e foi numa pequena loja que parámos para vencer a fome. Por fora, uma loja simples, sem grande história, colorida mas confundindo-se com todas as outras. Quase que numa espécie de desespero entrámos, afinal já estávamos outra vez perto do rio Moldava e o restaurante que procurávamos já não servia almoços, mas ficou a ideia para jantar.

 

Dentro daquela casa típica, um pequeno espaço onde o kebab era rei. Um balcão sujo para comermos de pé, uma mesa com duas cadeiras, bebidas de um supermercado low cost dentro de um frigorifico de self service e as paredes com um sem número de fotografias alusivas a monumentos milenares que prenderam a minha atenção. Por momentos dei comigo na Turquia e pelo médio-oriente.

 

O empregado era árabe. Numa primeira abordagem, apresentou-se mais fechado mas rapidamente abriu o sorriso às nossas perguntas. Disse-nos que nos havia confundido com húngaros e daí a sua reticência em arriscar um comportamento mais expansivo. Falámos muito de Marrocos, da presença dos árabes em Espanha e Portugal e da nossa paixão pela Turquia - isto até eu ter indagado que duas das fotografias eram de Palmira. Foi aí que percebemos que não estávamos perante um turco mas sim perante um sírio que tinha fugido da guerra.

 

Enquanto comíamos um kebab, e também enquanto o sírio ia brincando, mexendo com as mãos na alface e na cenoura do balcão que albergava os rechauds com que ornamentava a iguaria da casa, ficámos a saber mais sobre as suas origens - a família que vivia na Síria, alguns em Aleppo e outros próximos de Palmira - foi neste intervalo, com o telemóvel, que pudemos ver fotografias de Palmira completamente destruída, fotografias reais, daquelas que não surgem nos jornais mas nos olhos trágicos daqueles que sempre viveram naqueles territórios... fotografias actualizadas que, depois comparámos e em nada tinham a ver com as últimas que haviam chegado aos media.Estavam frescas, estavam vivas, horrorosamente vivas.

 

Apesar de alguma tristeza que os seus olhos não conseguiam disfarçar, o sírio mostrava-se optimista no seu sorriso humilde. Fazia perguntas acerca de Portugal e de como poderia lá montar o seu negócio - respondemos que não era fácil e de como o nosso país também não era tão atraente como se vendia nos postais turísticos. Foi aí que levantou os olhos, sorriu, estendeu as mãos para a alemã e disse: "mas vocês têm paz".

 

Mas nós temos paz, de facto. Dei comigo a pensar no que seria pior, se enfrentar toda uma máfia que prolifera no nosso país ou se, realmente, deitar-me sem saber se no dia seguinte acordaria tal o estrondo das bombas à minha volta (ainda hoje não tenho resposta e isso é estranho). Pensámos ambos em como era morrer sufocado por gases tóxicos, como era ser atingido por uma bala perdida enquanto se vai comprar algo para comer no intervalo em que também as peças de artilharia precisam de respirar antes de debitarem o seu fogo. Hoje, porque já escrevi este texto há algum tempo, penso que a Síria está esquecida e serve apenas de terreno para países como Rússia e não só prepararem a guerra e testarem na carne humana os novos brinquedos.

 

Para aquele Ser, pessoas como Assad,Obama, Trump e Putin eram todos terroristas, pouco diferentes de um Estado Islâmico. Passado este tempo, vemos Obama como uma estrela de Hollywood e Donald Trump como um ser esquecido, tal como o sucessor Biden que vai tentando manter a imagem de velhote cool e liberal agarrado a uma única bandeira (o racismo) e mais preocupado com a gestão da imagem. Vamos ver por quanto tempo vai durar. Assad e Putin ainda perduram... E irão perdurar enquanto quisermos dominar com cacofonia as Democracias do Ocidente e assobiar para o lado quando o problema está a cinco horas de distância.

 

Mas para aquele Ser, qualquer um deles podia acabar com a guerra num minuto mas não era essa a sua vontade nem o seu interesse. Perguntei como era possível que o Presidente de um país ordenasse um ataque químico como de Ghouta em 2013 e que matou milhares de compatriotas - hoje, quando muitos partidos políticos, facções e pseudo-personalidades falam de mentira em Douma e tentam também influenciar e tirar proveitos dessas declarações, é importante fazer recuar as mesmas uns 5 anos e perceber que nada disto é novo e que esse arsenal químico existe e é utilizado! Perguntei e o sírio baixou ainda mais os olhos, não me respondeu - optei por não desenvolver o assunto. Infelizmente, é assunto que voltou a ter lugar e vai acontecendo todos os dias... Para aqueles lados banalizou-se a morte com armas químicas e o ruído de uma descarga do género não tem eco nas redes sociais.

 

Pedi um copo para despejar o refrigerante que tinha tirado do frigorífico. De entre os vários copos, pois consegui apreciar a procura, escolheu o mais limpo. O mais limpo que levou a que a alemã arregalasse os olhos tal era a gordura que envolvia o mesmo, muito por culpa de uma má lavagem. Não era novo para nós, despejei algum refrigerante e bebi, não seria de bom tom beber pela garrafa. A conversa continuou e ficámos a saber mais sobre o destino da família daquele homem, da irmã e do irmão... Dos sobrinhos... Da restante família... Ficámos a conhecer os rostos e aqueles olhares, apesar de tudo... Felizes. Estarão ainda vivos? Vivendo onde vivem, temo que não...

 

Entrou um checo, conhecido já do proprietário do estabelecimento. Cumprimentou, assistiu um pouco à nossa conversa, sorriu... Sorriu bastante e em checo disse algo como "volto mais tarde". Deve ter pensado que eu era árabe, sobretudo porque entrou no momento em que eu dizia também ter esse sangue e orgulhar-me desta mescla de culturas em que nasci e cujos genes não me deixam mentir.

 

Como bom árabe, ofereceu-se para nos fazer um café. Café de cafeteira, como tem de ser entre seres que partilham esse "maldito" sangue! O café veio prolongar a conversa e permitir que numa cidade Património da Humanidade, mais que construções e um sem número de património material, o verdadeiro Património da Humanidade, indestrutível e rico estava ali, naquelas pessoas que conversavam. Gostámos da cidade, mas sem dúvida que a grande recordação que de lá temos foram estes momentos onde o frio da Boémia foi vencido pelo calor de uma boa conversa, de uma amizade, do conforto da troca de laços. Pelo calor que emanou das terras onde as oliveiras e as laranjeiras crescem como cogumelos e onde os seus néctares contagiam quem quer que se atreva a saborear o precioso ouro líquido. O aroma de um café que não era brilhante mas sim carregado de amizade, perseguiu-nos até ao adormecer.

 

Chegada a hora de pagar, indaguei do valor do café, erro crasso e que já não deveria permitir a mim mesmo. Reparei que o sírio quase que ficou ofendido, tendo eu, sido obrigado a dizer que estava demasiado ocidentalizado e ele que me perdoasse o facto de me ter deixado levar por aquela lógica. Quebrámos o gelo, e antes de sair, entre um forte abraço, olhámos mais uma vez aquelas fotografias e o sírio... Queríamos levar aquele momento connosco e sem qualquer suporte digital afinal, dia menos dia iria desaparecer - queríamos registar aquele acontecimento no melhor disco rígido do mundo e assim o fizemos.

 

Não vou falar dos ataques dos últimos dias, mas não posso deixar a revolta que sinto ao, num dos países que mais me apaixona naquela região, a par do Líbano, ver e ouvir o que vejo. Revolta-me que tenha de assistir a uma matança que ninguém percebe muito o porquê, que tenha de assistir a um ditador que não hesita um segundo em matar todo o seu povo, seja de que forma for! Sugiro, aliás, que se matem todos os sírios e que fique Assad e a sua legião a governarem um país vazio e que não alimente as vidas de luxo que este e a sua família não hesitam em ostentar... Tudo isto enquanto cartuchos de gás matam o seu povo e tornam, como dizia Gabriel Garcia Márquez,  invisíveis todos aqueles que morrem, porque é esse uma das faces da fatalidade.

 

Entretanto, em Český  Krumlov, espero que o sírio continue a mostrar as fotografias da família com um sorriso nos lábios, com um brilho nos olhos e não com as lágrimas de quem já só poderá contemplar aqueles rostos numa fotografia.

 

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Para quem quiser ouvir: não consigo deixar de gostar desta intérprete, não só pela sua verticalidade num activismo realista (alguém que sabe como se defendem as mulheres e recusa o chinfrim) mas também pela sua música. Chambao é daquelas lufadas de ar fresco que nos animam no meio de um dia de trabalho ou num final de tarde entre bons amigos enquanto, entre um mosto blanco e uma tapas com toque avilleño, miramos as montanhas. Deixo "Los Sueños" para sonharmos e voarmos pelas áridas mas tão apaixonantes planícies de Castilla y León. Se descermos até à belíssima e mediterrânica Cádiz, encontramos algo que nos deixa bem dispostos logo pela manhã... O dueto com La Mare: "Viento de Levante".

Para quem quiser ler: Volto a Pio de Abreu, agora com "O Bailado da Alma". Menos Gustavos Santos (alguns com licenciaturas) e mais ciência, mais conhecimento e deixemo-nos levar por este mundo da consciência que ainda tem tanto por descobrir. 

Para quem quiser assistir: de facto, já ninguém poderá assistir, ocorreu no Sábado. Mas foi estar presente na Masterclass de Diogo Infante que teve lugar no passado Sábado no Teatro da Trindade. Sala com muita gente, apesar do futebol (o tema mais importante de um país carcomido). Temas fraturantes, uma apologia a coisas raras como o mérito e a dedicação. Parabéns ao senhor Infante.

Para quem quiser ver: Tive oportunidade de ver este filme em Espanha, penso que por cá não passou. "Gaza mon Amour" é mais uma daquelas produções que nos mostram o mundo longe de hypes e como ele é. Em torno de uma estátua marota de Apolo, revela-se um filme para nos fazer rir e... Além do trabalho de Mohammed e Ahmad Abou Nasser, a banda sonora de Andre Matthias, também me convenceu. 

Para quem quiser comer: com uma cozinha mais contemporânea mas sem perder no sabor e na quantidade, o Xtoria, em Setúbal, poderia estar numa grande capital e manter a sua identidade própria. Simpatia e isto sim, uma experiência gastronómica sem conceitos importados e que nada acrescentam ao prato. Ideal para um almoço diferente em Setúbal e com muita pinta, uma das melhores surpresas da cidade.

(e como é sempre importante reforçar, tudo o que vi... ouvi... comi... e bebi, paguei e ninguém me convidou, aliás, até convidou... a voltar).

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