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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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27.10.20

Uma Outra Face da Crise...


Robinson Kanes

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Créditos: Corriere della Sera (Carabinieri (foto 01) e Elena Tonon (foto 02) )

 

Tudo retorna, as coisas e as palavras andam em círculo, às vezes atravessam o mundo inteiro, em círculo, depois encontram-se, tocam-se e encerram qualquer coisa.

Sándor Márai, in "As Velas Ardem até ao Fim".

 

O outro lado da crise mostra-nos que o pânico não reside apenas nos hospitais... O outro lado da crise mostra-nos que o espaço mediático não é apenas reservado à violência ou a selfies em busca do momento viral. O outro lado da crise também nos mostra que, como era previsível, o hype do "Black Lives Matter" na sua expressão mundial já lá vai. E é nesse outro lado da crise que também encontramos a polícia "boa", a que salva vidas, demonstra grande humanidade e nem sempre tem a visibilidade desejada - os anónimos heróis que não precisam de prémios, somente de um reconhecimento de todos nós.

 

E é neste contexto que, ao ler o "Corriere della Sera", encontrei o destaque dado a uma publicação dos "Arma Dei Carabinieri" envolvidos numa ocorrência de tentativa de suicídio. A imagem fala por si... Um certo descuido dos Carabinieri também fala por si e mostra toda a Humanidade, mas também fragilidade, com que vivemos nos dias de hoje. Esta imagem fala-nos da necesssidade de ordem, da necessidade de olharmos profundamente para as consequências de um confinamento exagerado e fala-nos também da humanidade... Daqui as uns tempos saberemos o cálculo das mortes e os verdadeiros custos extra da SARS-CoV-2 e aí faremos um balanço que, eu espero, não seja tão trágico ou mais trágico que a própria pandemia.

 

E é neste caminho turtuoso que a mesma publicação, porque nem tudo o que é viral é mau, partilha a imagem do senhor Giuseppe na sua jaleca. Talvez esta imagem não venha a estar nunca numa edição do World Press Photo, não faz parte da elite dos grandes fotógrafos, mas de certo, será a imagem, ou uma das imagens, que resume o espírito de todos os pequenos empreendedores, desde os mais recentes aos mais antigos e todo o seu desalento por, sem ainda perceberem bem porquê, verem todo o trabalho e entrega de uma vida desabar. Os pagadores de impostos encostados por aqueles que recebem o valor desse investimento/trabalho. Talvez para Giuseppe, até seja a oportunidade de se retirar e muito provavelmente ir viver a vida que até agora não viveu... Talvez, também possa ser o fim da sua vida, um assumir perante o suicídio, a confissão de que a existência não vale a pena como nos diría Camus. Giuseppe poderá ser um sério candidato a estar num telhado com mais dois Carabinieri. 

 

O "andrà tutto bene" nasceu num país alegre e animado que encarou genuinamente a pandemia como algo efémero e com isso foi exemplo (e cópia barata) para tantos outros... Todavia, os italianos já chegaram à conclusão que nem tudo "va bene" e a factura humana, social e económica veio em força e com muitos juros.

 

Estas duas imagens, por sua vez, contrastaram com uma imagem também vinda de Itália, em que uma enfermeira publicou uma selfie com as marcas da utilização de máscara e viseira. E aqui, o resultado não foi tão positivo, com uma Itália cansada de heróis de redes sociais, de fotos para a exposição pessoal e acima de tudo contra uma auto-exaltação que vai passando a imagem de que só alguns estão verdadeiramente, e passo a expressão, a dar o litro com a crise, como se isso não fosse comum a tantas outras profissões e não só em períodos de crise sem esquecer o risco dos salários não entrarem na conta aquando do final do mês.

 

Nesta onda de cocktails visuais e sonoros, quiçá possamos ver Giussepe e "la Dona" do telhado, a partilharem um belo "Risoto di Radicchio" e um Prosecco. Não tenho dúvidas que o "Chef" treviggiano encantará a Dona romana , celebrando quiçá, novos tempos, uma nova esperança e um mundo mais equilibrado. O resto, e socorrendo-me de Vergílio Ferreira, o resto é desgraça e desejamos que as mesma não se veja, até porque é por isso que existem as casas de banho... E não os telhados.

 

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