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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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16.03.21

Uma Questão de Nervos...


Robinson Kanes

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Créditos: www.dawn.com/news/1485151

 

Um serão em família bem planeado... pai e mãe chegam dos empregos. Ele prepara o jantar, ela dá banho aos miúdos. Brinca-se, pensa-se em como pagar o empréstimo da casa, diz-se mal dos amigos e chega a hora do jantar.

 

Entre chamadas de “João anda para a mesa” ou “Matilde, deixa a internet”, todos se sentam à mesa e iniciam o ritual cada vez mais raro de jantar em família. Cheira a comida oriental, uma receita que o pai retirou de um blogue. Uma ideia dos amigos e que, segundo ele, é uma receita de um país atrasado e de Terceiro Mundo mas fica bem na fotografia do instagram.

 

A cidade está alegre, é Verão, ainda se ouvem crianças a brincar na rua, o vizinho do lado a chegar e aquela família a jantar com os últimos raios de sol a inundarem a cozinha daquele T3 nos arredores de Lisboa onde ainda se sonha com a vivenda.

 

Pelo meio fala-se de futebol e do Ronaldo, fala-se do carro novo que já está decidido, dos detalhes do empréstimo e da escola dos miúdos. João exige umas sapatilhas novas, todos os amigos têm.

 

De súbito, um estrondo... a mãe levanta-se, vai ver. Só os cães ladram, as crianças na rua continuam a brincar. O sol em Lisboa é mágico e inunda a praceta de uma cor de fim de tarde que contrasta com o cinzento esverdeado dos prédios.

 

A televisão ligada corta o diálogo, deixou-se de falar do melhor penteado e da figura pública mais bem vestida e nos dois minutos que sobram de telejornal que durou 90 minutos chegam as notícias do mundo. O Pai diz - Não há paciência, merda para esses árabes! – e desliga a televisão.

 

É nesse momento que o som das crianças na praceta também se desliga, é também nesse momento que João começa a tossir. Os músculos do rosto contraem de tal modo que o João fica desfigurado num rosto digno de uma tela de Goya no seu período mais negro. Cai ao chão e apresenta convulsões que o fazem babar o ladrilho e urinar as calças que a avó com tanto carinho lhe deu. Agarra o pescoço, luta com os seus braços ainda pequenos, mas em vão...

 

Os pais acorrem em pânico, não conseguem perceber o que se passa, a linha de emergência está ocupada... Matilde, até então em choque, contorce-se na cadeira, agarra-se ao peito, o coração deixa de bater e os pulmões contraem-se de tal modo que nenhum oxigénio circula. Asfixia, cai perto de João que jaz já cadáver perante a falência respiratória. O seu rosto de menino transformou-se num retrato dantesco, as suas pupilas transformadas em mínimas esferas e o rosto com um olhar de horror, transformaram-no num pedaço de tragédia humana. A mãe vem gritar para a janela e vê os corpos das crianças que brincavam na rua no chão e amortalhados entre saliva e urina. Os pais, em pânico na praceta, choram e agridem os tripulantes das primeiras ambulâncias a chegar ao local.

 

No apartamento, de joelhos e em lágrimas, os pais sentem-se perdidos no mundo, João de 10 anos e Matilde de 8, foram vítimas de um ataque com agente nervoso. O cheiro da urina dá lugar a um cheiro pesado a insecticida... a um cheiro a morte.

 

Os ataques com armas químicas são crimes de guerra, são verdadeiros crimes contra a Humanidade! Humanidade, significa que são contra si. Já foi ver se os seus filhos estão bem?

(por estes dias passaram dez anos do conflito na Síria... por estes dias continuamos a ignorar os ataques com armas quimicas que se sucedem desde 2011...)

 

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  • Para quem quiser ler: "Os Filhos dos Nazis" de Tania Crasnianski. Um dos lados esquecidos da guerra... Filhos que idealizam os horrores dos pais e filhos que só querem esquecer. Testemunhos que a investigação prefere ignorar.
  • Para quem quiser ouvir: o "Trio nº 2 em Mi bemol maior para piano, violino e violoncelo, D. 929" de Schubert... Sublime e tão actual? Andante con Moto para deambularmos fora do nosso pequeno terraço... O Andante con Moto é daquelas peças.
  • Para quem quiser ver: a partir de 22 de Março, em streaming na Medeia Filmes, "O Rio" de Emir Baigazin. Mais um filme cazaque... Mais uma lição de vida e mais um confronto de realidades que nos farão pensar que a evolução do cérebro tende a não acompanhar a da criação.
  • Se andarem por Madrid: um salto ao "Teatro Español" para a peça inesquecível de Eduardo de Filippo: "¡Nápoles millonaria!" Como é bom regressar às plateias... É bom, é muito bom e esta peça também!
  • Se quiserem pensar... Se a União Europeia permite vacinas a pontapé é criticada se por sua vez retira vacinas para proteger os seus cidadãos é criticada... Alguém se decida.

2 comentários

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    Robinson Kanes 16.03.2021

    Tão longe da alma, tão perto de nós...
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