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sardinhaSemlata

Um espaço de pensamento livre.

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30.04.24

Valas Comuns, Anti-Semitismo, Censura e o Retorno ao Discurso do Eixo do Mal


Bruno

 

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Imagem: Bruno Nunes dos Santos

 

 A Guerra vai acabar
Os líderes irão apertar as mãos
A velha senhora continuará à espera do seu filho mártir
Aquela rapariga continuará à espera do seu adorado marido
E aquelas crianças irão esperar o seu heróico pai
Eu não sei quem vendeu a nossa terra
Mas vi quem pagou o preço

ستنتهي الحرب، ويتصافح القادة، وتبقى تلك العجوز تنتظر ولدها الشهيد، وتلك الفتاة تنتظر زوجها الحبيب، وأولئك الأطفال ينتظرون والدهم البطل. لا أعلم من باع الوطن ولكنني رأيت من دفع الثمن.

Mahmoud Darwish, "A Guerra irá Acabar" 

 

 

Defendo que cada indivíduo possua o direito a expressar-se ou não sobre este ou aquele tema e logo acredito que não será a recente pressão sobre personagens mediáticas para que se exprimam o caminho a seguir. Caberá a nós, optar por idolatrar ou não apreciando o seu comportamento. No meu caso, que de mediatismo pouco ambiciono, confesso que mesmo que tente conter as palavras ou os actos face à questão mais premente do Médio-Oriente, como cidadão do Mundo tal não me é possível actualmente.

 

São múltiplas as motivações e torna-se assustador vislumbrar que repetidamente pactuamos com crimes contra a Humanidade. Valas comuns em Gaza pejadas de crianças, mulheres e homens, muitas delas que já estavam hospitalizadas, são encaradas como um mal menor em nome da sede de poder de múltiplos indivíduos que deveriam estar a responder por crimes contra o seu país e agora o deveriam fazer por crimes contra a Humanidade. Como é possível não ficarmos pelo menos arrepiados quando as imagens de Gaza fazem lembrar o pior da guerra na Síria, para não ir mais longe e falar de Nagasaki, Hiroshima ou Dresden - as mais recentes são um autêntico cenário apocalíptico. Como é possível vermos "colonos" (entre aspas, porque é uma expressão criada para camuflar o terrorismo de um dos lados) a expulsar indivíduos das suas casas ou até a matá-los e acharmos isso perfeitamente normal.

 

Encontramo-nos neste momento perante um Estado, patrocinado também por todos nós, que incessantemente dizima uma população inteira há mais de meio século sendo que agora todos os limites são já inexpressáveis em palavras. Sabendo que os massacres são uma constante desde a criação do mesmo - não esqueçamos a Palestina, o Líbano, a Síria e todas as mortes que se continuam a perpetuar desde a segunda metade do século XX. Não podemos imediatamente condenar estados como o Irão (com todas as questões que possa ter) e depois estendermos a passadeira para que se continue a dizimar impunemente uma população e até a permitir que os ódios contra israelitas e judeus se exacerbem. No final, sabemos sempre que o céu  é de todos e o mundo é de quem mais apanha - e quem mais apanha são os inocentes de um lado e de outro e que pouco ou nada decidem. Já não é legítima defesa há muito, embora esse ainda seja o argumento usado, sobretudo por países como Estados Unidos e Inglaterra.

 

Atemoriza-me a narrativa e as acções que alguns indivíduos do povo que passou pelo Holocausto e que não hesita em puxar por esse ponto, se comportem à imagem do pior dos nazis. E antes que também aqui possa cair a censura, basta assistir a alguns discursos, até pela imagem e forma como são montados. As palavras como "não são humanos", "merecem ser exterminados", "têm de morrer" ou "são todos terroristas sem excepção" são bem uma cópia do que vimos na Alemanha dos anos 30 e em geografias como o Ruanda dos anos 90. São factos, embora os factos hoje possam valer pouco face aos discursos e que têm já levado à detenção de muitos indivíduos (inclusive professores e outros com um papel importantíssimo na sociedade) sobretudo nos Estados Unidos.

 

Não menos preocupante são as constantes referências a livros sagrados e à religião como desculpa para eliminar um determinado povo do mapa. A entrevista da passada semana do Coronel Oren Zini, junta-se a muitas outras com este cariz. Zini defendia a erradicação dos palestinianos em Gaza e que os mesmos deveriam ser eliminados com as 10 pragas biblícas do Egipto apagando assim a memória de Amalek! Não foi a Alcina Lameiras que disse isto ou um qualquer indivíduo em convalescença no Magalhães Lemos, foi um alto oficial israelita.

 

É altamente repreensível que um Primeiro-Ministro israelita condene os protestos em universidades americanas apelidando os manifestantes de anti-semitas que têm de ser parados, lembrando que foi assim que se iniciou a perseguição dos nazis aos judeus -tudo isto proferido enquanto dizima inocentes. Aconteceu na passada semana: "horrível" e "têm de ser parados" foram algumas das palavras usadas. Não só mostra a ingerência em questões de outros países como um certo à vontade por parte de Netanyahu. É importante lembrar que muitos destes protestos foram pacíficos e sem grandes altercações, sem esquecer a censura de que muitas figuras estão a ser alvo. Se é um facto que as universidades actualmente não são o melhor exemplo em termos de mudança social, também não podemos apanhar a onda para seguir o caminho da censura que muitas utilizam - forças especiais altamente armadas a retirar manifestantes que estão em jardins universitários sentados é digno de sistemas totalitaristas e não de Democracias. As imagens de violência para com os manifestantes são chocantes - pergunto onde andarão os "I can't breath"...

 

Outrossim não podemos ficar indiferentes ao discurso do ultra-radical Itamar Ben-Gvir que faria de Goebbels um escuteiro. Também pela cátedra de Goebbels parece ter estudado o Ministro das Finanças Bezalel Smotrich que apelou à "completa destruição" da Faixa de Gaza ao invés da negociação de tréguas entre o seu governo e o Hamas sendo que a isto juntou: " o tempo da Mossad voltar a fazer aquilo para que foi treinada chegou - eliminar os cabecilhas do Hamas por todo o Mundo e não em negociações conduzidas de forma irresponsável (...) com o Hamas, devemos falar apenas com mísseis e bombas". A cereja no topo do bolo é quando refere que Rafah tem de ser atacada "o mais rápido e fortemente possível, e continuar ao logo da fronteira até à sua completa destruição".

 

Francamente, não acredito que um povo como o israelita possa concordar com os discursos destes indivíduos e também se deverá interrogar porque é que nos meses que antecederam o ataque de 07 de Outubro foram erguidas bases e reforçados os meios militares junto à Faixa de Gaza - não querendo com isto sequer equacionar um inside job. Confesso que me assustam variadas personagens da sociedade israelita a destilar ódio porque em Gaza, os sobreviventes decidiram usufruir da praia num dia de calor - escutem o ódio do jornalista Yehuda Schlesinger no Canal 12 de Israel e parece que voltamos aos tempos da Radio Télévision Libre des Mille Collines. Faz-nos pensar naquelas pessoas que ao verem os outros felizes só esperam por uma oportunidade para que estes passem por uma tragédia. Ouvir um palestiniano a dizer que todos esperam a morte às mãos do exército israelita, só não sabem o dia nem a hora e até lá é viver o dia-a-dia é algo que não podemos permitir que se sinta.

 

Sabendo também que nos media a imparcialidade a 100% é uma miragem, não podemos ignorar a informação altamente filtrada e que não nos chega a não ser que procuremos escutar o outro lado, também ele não sendo 100% imparcial. Não podemos replicar uma notícia do New York Times e de outros meios que afirmaram erradamente que em Munique, o Presidente de Israel Isaac Herzog - deliberadamente manipulando a informação - afirmou que o livro "O Fim dos Judeus" havia sido escrito pelo líder do Hamas Mahmoud al-Zahar  quando no fim de contas a obra havia sido publicada pelo egípcio Abu Al Fida Muhammad Aref, e depois não desmentir a mesma. Quem o confirmou foi a própria Biblioteca Nacional Israelita e ninguém se preocupou aquando da publicação da notícia em verificar os factos. Vivemos na Era do copy-paste que chega das agências de comunicação e das assessorias de imprensa, para não ir mais profundamente à questão.

 

Também ainda estamos a aguardar factos que justifiquem a matança de inocentes (e inclusive a destruição de hospitais) supostamente com o argumento de que estariam ligados ao Hamas. As Nações Unidas investigaram e ainda hoje esperam pelas provas que Israel disse ter mas afinal parece não ter. Também tem sido uma tendência, sobretudo desde a guerra na Síria, o bombardeamento progressivo de alvos que nunca pensaríamos no século XXI que pudessem ser alguma vez equacionados como hospitais, escolas e locais de culto. Tem sido uma tendência que renasceu com o alto patrocínio sírio e russo e que teve lugar também na Ucrânia e agora em Gaza. Pactuar com isto é pactuar com a pior tirania que pode existir - mesmo que sejam locais de refúgio para terroristas, em caso algum se justifica semelhante carnificina e destruição. Como já referi noutros textos, existem formas muito mais eficazes e até subtis de matar quem se esconde entre inocentes.

 

Por último, o regresso do discurso, inclusive em Portugal, do Eixo do Mal. Ainda nos devemos lembrar de George W. Bush antes da invasão do Iraque. O Eixo do Mal, então formado pelo Irão, Iraque e Coreia do Norte. Agora acrescenta-se a Rússia, alguns acrescentam a Síria e noutros casos já existe quem tente a China. Convenhamos que a fotografia não é deslumbrante, é um facto, não obstante foi este o discurso que transformou o Iraque naquilo que vimos e o Afeganistão na história a que também assistimos e consequentemente a Síria e todas as peripécias que rodearam a génese do Estado Islâmico. O regresso destes discursos é o tiro de partida para episódios que não queremos voltar a assistir e que para além da destabilização e mortes que provocam só são apreciados e defendidos por políticos que não hesitem em marcar negativamente gerações de jovens combatentes ou generais (ou comentadores?) que nunca colocaram o pé num campo de batalha e cujas medalhas que ostentam não passam de trabalho de expediente ou académico. No terreno serão os operacionais a sofrer, sem perceberem muitas vezes o porquê de ali estarem mas que mesmo assim, e muito bem, não ousam virar as costas ao seu país, isto enquanto muitos cidadãos guerreiros de sofá incitam ainda mais o conflito... até os filhos serem mobilizados.

 

Talvez a culpa seja de todos nós que não temos o direito de não eleger mas temos o direito de exigir, mesmo que muitos daqueles que nos governam ou ambicionam em governar como cabeças-de-lista (sobretudo...), quando questionados sobre as suas pastas ou visão para o mundo não conseguem sequer proferir duas palavras, sendo que até uma candidata a Miss Mundo faria melhor - liberdade também é essa exigência, o 25 de Abril seja ele onde for e tenha o nome que tiver, também é isso e não apenas descer uma avenida uma vez por ano ou proferir discursos carregados de naftalina mesmo que disfarçados de conteúdo moderno ou proferidos por gente jovem/moderna com comportamentos de velhas múmias.

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Para ler: de Khalil Alrez, uma história de animais, de pessoas e de guerra. Uma espécie de tentação entre Huxley e Orwell mas escrita de uma forma sublime a bastante actual: "الحي الروسي" ou em inglês "The Russian Quarter".

Para ouvir: uma descoberta recente e ainda em curso. Da Arménia os "Ethno Colors" surpreendem-me cada vez mais pela positiva. Música tradicional arménia com gente jovem mas de profundas raízes. Precisamos disso, precisamos mesmo. Fica "Vay Babo" , mas sem dúvida a explorar outras composições. Ainda os vamos ouvir num FMM ou quiçá na Gulbenkian, quem sabe,.

Para assistir: quando a Gulbenkian anunciou a troca de artista para o dia 04 de Maio, foi uma enorme surpresa ser apresentado ao projecto Badieh que une um iraniano e um espanhol que trazem os sons de Khorasan - fronteira Afeganistão-Irão - a Portugal. Lá estarei, para recordar uma região única no mundo não só do ponto de vista geográfico mas também das suas gentes e tradições.

Para comer e beber: o "Sauvage" do CCB é ponto de paragem obrigatório antes ou depois de um espectáculo ou apenas para umas horas bem passadas. É também um local de boa disposição, de empregados super simpáticos e de comida boa. A dois ou em amigos, com DJ a colocar música da boa, é uma forma de iniciar ou terminar a noite em grande estilo. O Ravioli de Bacalhau é uma excelente surpresa e o "Caminho de Salomão" a sobremesa ideal para terminar a refeição - para quem não gosta de suspiros como eu, são servidos à parte e a sua ausência só torna a experiência ainda melhor. Bebamos um Gambozinos Reserva de 2017. Um tinto inigualável de um produtor recente, abaixo dos €15 (quando vale mais que isso) e oriundo de um dos melhores solos da região duriense, ali bem no coração da Pesqueira.

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